Localizada em redor de vila de Almendra, na mais nobre zona do Douro Superior e englobada na Reserva Arqueológica do Vale do Côa, a CARM apresenta-se como uma empresa reconhecida na atividade agrícola. Celso Madeira, fundador da empresa, deu-nos a conhecer o seu trabalho e percurso ao longo dos tempos.

Quem chega a Vila Nova de Foz Côa é presenteado com paisagens únicas sobre o Douro e quem as aprecia nem imagina o que a agricultura daquelas terras pode dar ao mundo em termos de qualidade. As culturas das vinhas e das oliveiras tornam a região rica em termos não só ambientais e paisagísticos como também económicos.

Dali, resulta um belíssimo azeite e um ótimo vinho, e que o diga o Engenheiro Celso Madeira que, em 1999, criou a CARM – Casa Agrícola Roboredo Madeira, S.A.

Se voltarmos atrás no tempo, a família começou o seu trajeto na produção agrícola tradicional na região, no século XVII. O objetivo sempre foi o mesmo: produzir azeites e vinhos de alta qualidade a partir de azeitonas e uvas das suas quintas.

Com um ambiente único que abrange a região, a exploração abrange mais de 600 hectares em que a lavoura das quintas é, quase na totalidade, feita sob modo de produção Biológico, com cerca de 200 hectares de olival, 150 de vinha e 60 de amendoal.

Com características muito próprias dos solos, que são pobres e de origem xistosa com elevados declives, aliadas às condições climatéricas do local que são rudes, as culturas tradicionais da região são condicionadas logo à partida. As culturas da vinha, do olival e do amendoal são as únicas adaptadas às características desta região.

Como tal, Celso Madeira, engenheiro civil, afirma que “a terra tem a capacidade de criar ligações muito fortes com as pessoas” e revela que o gosto pela agricultura surgiu naturalmente relembrando que muitas vezes acompanhava o seu pai ao Douro, onde ele mantinha uma agricultura “de amor” e nada rentável.

No entanto, a agricultura a tempo inteiro só apareceu na vida do engenheiro civil após a sua reforma: “Quando acabei a minha formação andei um pouco por todo o mundo, mas, quando da reforma, pensei que alguma coisa tinha que fazer com os terrenos que tínhamos e, no fim, acabei por arriscar”, conta Celso Madeira.

Com um intuito inicial de potenciar as propriedades da família, aumentar a agricultura e fazer novas plantações de vinhas, numa perspetiva de vender a produção a terceiros, nem tudo foi fácil. Após o aparecimento de algumas dificuldades em termos de vendas, a única solução viável no entender do fundador da empresa foi “apostar na transformação e comercialização das matérias-primas próprias”, o que deu origem à CARM, em 1999.

A evolução

A CARM permitiu ser uma ferramenta não só de rentabilização da produção, como colocar no mercado, a preços acessíveis, produtos com uma grande qualidade, diferenciados. Uma grande parte é derivada ao modo de produção biológico e à inovação, como é o caso do vinho sem sulfitos adicionados, o “SO2 Free”.

Assim, em 2004, a CARM deu um passo importante na perseguição dos objetivos impostos e construiu uma nova adega equipada com a mais recente tecnologia. Esta, é uma ferramenta indispensável para os processos de produção, estágio e engarrafamento dos vinhos.

Localizada na Quinta das Marvalhas – Almendra, fonteira com o Parque Natural do Douro Internacional, oferece vistas ímpares e impressionantes sobre o Douro Superior. Esta escolha recaiu sobre dois fatores: “o facto de esta quinta estar numa posição relativamente central em relação às vinhas da CARM, permitindo assim um transporte rápido e eficaz das uvas na altura da vindima, mas também o facto de estar situada a 400 metros de altitude, com exposição nascente norte, minimizando deste modo a demasiada, e, por isso, nefasta, insolação”.

O laboratório analítico, a linha de enchimento e rotulagem, conferem a esta adega a autonomia necessária ao controlo eficaz de todo o processo produtivo. Com o equipamento tecnológico mais avançado, a proeminência e importância dos recursos humanos não são esquecidos. O principal capital da empresa, são os seus colaboradores, em que cerca de 60% são licenciados, todos se destacando pelo profissionalismo, capacidade e dedicação.

“Nobel” do Azeite

O azeite, após ter sido fustigado durante muitos anos por diferentes óleos e pelo corte cultural com o passado, em que servia para quase tudo em casa, retomou, há poucos anos, a confiança dos portugueses e o prazer do seu consumo.

O reaparecimento da mancha de olival nos últimos anos em Portugal permite pensar que um dos maiores símbolos de identidade mediterrânica está de volta. Nos últimos anos, têm sido produzido mais e melhores azeites e os consumidores estão a tornar-se “especialistas”, tornando-se mais requintados na escolha.

A produção de azeite, pela família de Celso Madeira, começou em 1998, a partir dos seus olivais à volta de Almendra, uma unidade contemporânea em que os métodos tradicionais coexistem numa harmonia perfeita com a tecnologia de ponta do restante equipamento.

Celso Madeira refere que “a decisão de produzir azeite resultou do conhecimento das necessidades e gostos do mercado internacional e a decisão resultou plenamente pois, logo no primeiro ano em que concorreu ao VI Concurso de Azeites DOP, obteve a mais alta pontuação de todos os concorrentes às várias vertentes do concurso”.

Os resultados, a partir daí, apareceram cada vez mais satisfatórios com incontáveis prémios em concursos nacionais e internacionais, e, só para citar um caso, e considerando particularmente o prémio Mário Solinas, “o nobel do azeite”, do Internacional Olive Council, a CARM era, em 2014, a empresa do mundo com mais prémios (e segundo a classificação internacionalmente aceite da “Best Olive Oils of the World”.

A apanha da azeitona é, ou feita à mão com recurso a pequenos vibradores ou com vibradores grandes acoplados a tratores. Inicia-se em meados de outubro e prolonga-se até ao Natal, altura em que a azeitona, na região, está já praticamente toda preta, com o consequente princípio da perda de qualidade do azeite. As variedades utilizadas para a obtenção dos azeites CARM são: Verdeal, Cobrançosa, Negrinha e Madural, sendo esta última predominante. No entanto, pensa-se que, nos novos olivais a plantar, serão talvez usadas outras castas de molde a potenciar uma maior diversidade dos lotes.

A CARM transforma, além da sua, a azeitona de distintas sociedades do Douro, tendo uma produção de cerca de 250 000 a 300 000 garrafas/ano, e sendo o anterior processo produtivo rigorosamente controlado. A maior parte do azeite é obtido a partir do modo de produção biológico.

Os “nichos” de mercado objetivados pela CARM sempre foram os países com forte poder económico e exporta, entre outros, para o Brasil, Canadá, Japão, Macau, Suíça, Angola e EUA.

Já o mercado nacional, só a partir do inicio de 2010 é que foi mais trabalhado, estando os azeites disponíveis no Continente, El Corte Inglês, Jumbo, Makro e Lojas Gourmet.

Vinhos para o Mundo

Ser português exige grande responsabilidade. É esperado que saibamos apreciar um bom vinho e a maior parte de nós até o consegue fazer com alguma agilidade, mas com a quantidade de exemplares disponíveis não é tarefa fácil. A CARM é uma das marcas mais reconhecidas do Douro Superior.

Com uma posição inovadora e dinâmica, com um trabalho árduo desenvolvido pela família Roboredo Madeira desde a vinha até ao momento de servir, a CARM é uma marca diferenciadora.

O primeiro rótulo de vinho com a marca CARM saiu em 2000, a partir de uma adega em S.J. da Pesqueira, e desde então, não parou. O passo foi curto, daí a construção da adega em 2004, ano em que saiu também o primeiro vinho produzido e vinificado pela CARM.

Mas já vem de longe a prática vinícola. A vinha existente mais antiga tem cerca de 100 anos e desde a sua criação, em 1999, a CARM não tem parado de plantar e melhorar a seleção de clones de castas portuguesas tradicionais. O modo de produção biológico está introduzido em quase todas as suas quintas, que abrangem os mais de 150 hectares de vinha.

A produção do vinho chegou mais tarde que a do azeite e Celso Madeira esclarece que tal só aconteceu por razões económicas uma vez que “o custo dos investimentos era muito maior”.

No entanto, o sucesso é enorme para as duas valências. A produção do vinho, quem em 2009 rondava as 400 000 garrafas, passou no ano seguinte para cerca de 600 000, depois para 800 000, e sendo o atual objetivo, atingir o milhão e duzentas mil, aproximadamente, num horizonte máximo de cinco anos.

As castas utilizadas são, unicamente, autóctones, e entre outras, a Touriga Nacional, Touriga Franca, Tinto Cão, Tinta Francisca, Touriga Brasileira nos tintos e Rabigato, Viosinho e Codega do Larinho nos brancos, algumas provenientes de vinhas com mais de 50 anos.

Atualmente, as linhas de vinhos são os “Vinha do Bispado” (brancos e tintos) e a gama “CARM” que abrange os “Colheitas” (tinto, branco e rosé), os “Reserva”, os “Grandes Reserva”, os “Maria de Lourdes”, os “CM” e, o último lançamento, o “SO2 Free”. Em 2008, iniciou a produção de Porto com uma honrosa classificação de “Vintage”.

A CARM, aos olhos de Celso Madeira, tem dois fatores importantes de diferenciação: um “a nível comercial, uma boa relação qualidade/preço” e outro “a nível de produção, uma tecnologia que permite obter vinhos com a tipicidade do Douro, mas que tentam ser mais elegantes ou mesmo criar vinhos de todo surpreendentes, como o “SO2 Free””.

Direcionadas para o mercado externo, as vendas da CARM estão presentes em mais de vinte países. E, só em 2010, é que o mercado nacional começou a ser trabalhado com maior profissionalismo e bons resultados.

Na CARM acredita-se que “o produto nacional deve procurar afirmar-se nos mercados externos mediante uma política de alta qualidade a preços competitivos de modo a ganhar, passo a passo, o reconhecimento dos clientes”.

Em termos de qualidade, Celso Madeira está convencido de que “aos poucos e poucos o Douro vai impor-se cada vez mais no mercado internacional, coisa que seria muito facilitada com uma estratégia bem definida para a região acompanhada de políticas agressivas de marketing”.

Responsabilidade ambiental

A família Roboredo Madeira é um caso de sucesso, cujos vinhos, azeites e produtos “gourmet” são alguns dos prazeres que de melhor lhe podem proporcionar sempre tendo em conta, como afirma Celso Madeira, “a responsabilidade ambiental”.

As atuais alterações climáticas, que põem em risco a própria sobrevivência do planeta, têm de toda a evidência, impacto nas culturas tradicionais e obrigam a uma resposta responsável e coletiva: “Cada vez mais a agricultura, ou outra qualquer atividade, deve-se pautar e, fundamentalmente, por um estrito respeito pela natureza. Tentamos na CARM proceder em conformidade, mas sem fanatismos, continuando sempre que possível a trabalhar em molde de produção biológica. Tentamos igualmente adaptarmo-nos a esta nova realidade adversa e assim, entre outros, procuramos implementar as nossas vinhas à quota mais alta possível e, preferencialmente, viradas a norte. E, escolhemos variedades e clones que melhor se adaptem e, tentamos, a todo o custo, encontrar água para rega (e, neste caso, tentamos igualmente o mais possível fugir aos furos, preferenciando pequenas barragens ou charcas)”.

Na realidade, a falta de água é a questão número um que se levanta tanto à agricultura nesta região como em todo o nordeste do país. “Sem água não há agricultura e espanta o que se passa em Portugal – privilegiam-se os furos e há uma “raiva” primitiva e acéfala às barragens”.

Para o futuro…

“Temos pela frente um caminho longo e difícil de percorrer (não nos esquecemos da afirmação de uma grande senhora dos vinhos – o difícil, no mundo dos vinhos, são os primeiros 200 anos) e, a vocação da CARM é fazê-lo, por muitos anos que demore”.

Com todo o sucesso e reconhecimento obtido ao longo dos anos, os planos para o futuro empreendem-se em dois grandes objetivos: num horizonte de três anos quase duplicar a produção, tanto de vinho como de azeite, sem perder a qualidade e, até, melhora-la. E, por fim, atingir uma percentagem de exportação à volta de 75% de produção preferencialmente para fora da Europa. “Para isso, seremos obrigados a fazer vultuosos investimentos tanto na estrutura produtiva como na agro-transformação e, isso, vai-nos obrigar a seguir atentamente a tesouraria e a um possível “apertar de cinto””.

“No entanto, julgamos que ultrapassaremos as dificuldades e atendendo tanto à nossa capacidade de esforço como à evolução bastante positiva da empresa nos últimos anos; na realidade, nos últimos 6 anos, crescemos uma média superior a 15% e, este ano, pensamos ter uns 25%”.

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