Carlos Rocha e Ricardo Carvalho são a segunda geração que comanda os destinos da Carone. Fundada há 41 ano por Manuel Carvalho e Vasco Neves, a Carone dedica-se ao desenvolvimento e produção de artigos relacionados com a área dos cortinados e decoração. Em entrevista à Portugal em Destaque, o sócio-gerente Carlos Rocha (C.R.) e o gerente Ricardo Carvalho (R.C.) apresentam a Carone e o seu posicionamento de mercado.

 

A Carone criou o produto perfeito para a decoração de interiores, o sistema de cortina onda perfeita. A inovação continua a ser uma aposta forte da Carone?

C.R.: O sistema de cortina onda perfeita foi inventada pela Carone e ainda hoje continuam a  imitar, mas sem grande sucesso. Como somos dos poucos a fabricar os componentes, a estudar os materiais a utilizar, desde o gancho, ao ilhós até ao material que compõe a calha, a concorrência nunca conseguiu lançar um produto com a mesma qualidade, durabilidade e preço competitivo. A calha girassol, tecnicamente calha 5.000, continua a ser a mais utilizada nas casas particulares e em muitos negócios, principalmente na área da hotelaria, dada da sua versatilidade e adaptabilidade a vários ambientes. Este sistema fazia exatamente o mesmo efeito que o ilhó, mas muito mais prático para retirar e recolocar do que esse sistema. Para além disso, o sistema de abertura/fecho era feito através de cordão, o que garantia a onda sempre perfeita. No início, as lojas tinham de comprar os ilhós, colocar a fita na cortina e cravar os ilhós no tecido. Quando desemvolvemos este novo sistema, tirámos esse trabalho e investimento inicial aos retalhistas. Tivemos sempre o cuidado de conservar as lojas que comercializam os nossos produtos, nomeadamente o retalho. A nível financeiro esta inovação não trouxe grande alteração de preço, os retalhistas continuaram a comercializar os nossos produtos, introduziram uma novidade no mercado e continuaram a ter a sua margem.

Evidentemente, são inovadores. Como conseguem conciliar a inovação com a criação de produtos novos e manter a relação preço/qualidade tão competitiva?

C.R.: Começo por lhe responder com um exemplo: havia várias empresas que fabricavam ilhós para os cortinados. De forma a combater a concorrência, decidimos fabricar máquinas de cravar os ilhós, comercializadas a um preço simbólico , com o objetivo de fidelização das lojas que comercializam os nossos produtos, podendo manter-se competitivas. Dependemos do exterior apenas para adquirir a matéria prima e perfil de alumínio. Projetamos, desenvolvemos e executamos os moldes de injeção de plástico e ferramentas para produzirmos  o nosso material, estampamos, injetamos e lacamos. O pouco trabalho que é feito fora da fábrica é projetado por nós, ou seja, toda a parte de criação e inovação é nossa. O mais recente projeto que abraçamos prende-se com a criação um novo tipo de calha , novo conceito de decoração e aplicação, para estruturas hospitalares, simples, prático e seguro. Existe um sistema próximo do que o cliente pretende, mas não satisfaz as caraterísticas técnicas e esteticas necessárias para ser aplicada neste projeto, dada a magnitude do mesmo. O preço deste conceito que estamos a produzir, por medida, será bastante atrativo, tornando-nos  muito competitivos.

Patentear o design foi uma das soluções encontradas para travar as cópias das vossas criações?

R.C.: Como os valores para patentear o design de produtos está mais acessível decidimos investir neste campo para proteger as nossas criações. Há cerca de quatro anos decidimos patentear o design de duas novas calhas que lançámos no mercado. Infelizmente o resultado não foi o esperado. Temos processos pendentes desde essa altura, porque a entidade competente, a ASAE, não atua em conformidade com o que a lei impõe. Já apresentámos duas reclamações a esta entidade porque copiaram uma das nossas calhas e nunca obtivemos resposta; apresentámos reclamações por escrito às entidades policiais e também não obtivemos resultados e o nosso último passo foi apresentar uma queixa formal emTribunal. Se vai resultar nalguma ação não sei, mas estamos a tentar proteger as nossas criações. A necessidade de proteger os desenhos e a criação de produto é premente. Antigamente, era um tabu fazer um perfil, atualmente qualquer pessoa consegue copiar o que já está feito, basta ter uma peça original. Quem inventa o produto é que tem o trabalho de fazer os desenhos técnicos, definir as suas funcionalidades, investe criatividade, tempo e aplica originalidade. Acho que os desenhos podem ser úteis e utilizados por outros, mas, tal como acontece noutros países, quem os quer utilizar tem de pagar ao inventor.

Avizinha-se um investimento em instalações novas?

R.C.: Existe um projeto para a construção de uma fábrica nova, de raiz, num terreno ao lado destas instalações, financiado com capitais próprios. Assim que tivermos o aval camarário iniciaremos a construção da nova fábrica da Carone. Atualmente usufruímos de 900 m² de área coberta e iremos passar para 2.600 m². As pessoas e as máquinas serão as mesmas e o processo de transição irá ser gradual  porque não podemos para a produção. As encomendas continuam a chegar e os clientes esperam que o produto chegue dentro do prazo que lhe indicaram. A Internacionalização tambem o exige, a procura de mais mercados e a manutenção dos existentes assim o determinam.

Muitos industriais queixam-se da falta de mão de obra. A Carone também sente essa dificuldade?

C.R. e R.C.: A mão de obra é escassa e algumas pessoas simplesmente não querem trabalhar. Há casos que acontecem um pouco por toda a indústria, principalmente na que necessita de muito trabalho manual.Tivemos situações, em que as pessoas trabalham da parte da manhã e não comparecem no local de trabalho da parte da tarde. Temos dificuldade em contratar pessoas que estejam dispostas a aprender a trabalhar neste ramo. Atualmente, há uma camada jovem que é licenciada ou mestre e não quer trabalhar neste ramo e similares porque tem demasiadas qualificações, e a outra parte da camada jovem que não terminou o ensino mínimo obrigatório, mas que não está disposta a trabalhar na indústria e não aposta no seu futuro profissional. Acredito que há um problema grave de mentalização de que nem todas as pessoas têm vocação para realizar as mesmas tarefas e este paradigma vai prolongar-se pelas gerações vindouras.

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