A cana-de-açúcar é reconhecida como património intemporal da Madeira e a Fábrica Mel-de-Cana Ribeiro Sêco constitui uma referência na produção de mel-de-cana. Cruzadas as identidades, embarque connosco nesta viagem ao tempo dos engenhos e dos sabores mais doces que têm conquistado habitantes locais e visitantes ao longo de mais de 130 anos.

Fundada em 1883, a Fábrica do Ribeiro Sêco é um exemplo incontornável da valorização de tradições familiares. Quando entramos nestas instalações, a pequena plantação de cana-de-açúcar revela uma atividade que apesar dos anos não foi esquecida e eleva uma matéria-prima de características únicas. Mas não ficamos por aqui. Além de toda a zona de laboração e armazém, a empresa continua a preservar o seu modesto escritório, que outrora funcionava o laboratório de desenvolvimento de fórmulas e produtos de sucesso. Aloísio de Bettencourt foi o fundador e inicialmente começou por produzir aguardente, vinagre de vinho, sumo de uva, vinho azedo e, mais tarde, sumo de maracujá. Entretanto, com uma lei de 1927 que obrigou os engenhos a fecharem portas, foram proibidos de produzir aguardente de cana-de-açúcar e o equipamento foi apreendido. “O nosso foi um deles e o filho do fundador, Luís Vogado Bettencourt, decidiu apostar numa fórmula do mel-de-cana, em 1932. A partir de 1935 começou a produção e essa é a fórmula que mantemos até aos dias de hoje, com algumas melhorias de equipamentos. Foi necessário atualizar e evoluir nesse sentido”, conta-nos o sócio-gerente.

Esta empresa familiar conta com mais de 130 anos de atividade e tem atravessado gerações. Os sobrinhos do fundador herdaram o negócio e após o seu falecimento, João Carlos Melim assumiu a gerência, juntamente com as irmãs e cunhados. A cana-de-açúcar foi implementada na Madeira em 1425 e é um produto com grande expressão. O mel-de-cana constitui um produto que cruza a sua identidade com a própria identidade da ilha. Designado como o “ouro branco”, dada a sua grande quantidade e o açúcar extraído, este produto mantém-se intemporal. São muitos os produtores espalhados pela região e a Fábrica do Ribeiro Sêco recorre a eles há já vários anos.

O processo

Mas afinal como obtemos o mel-de-cana através da cana-de-açúcar? O processo inicia-se com a introdução das canas-de-açúcar nos moinhos, antigamente conhecidos como engenhos, onde são trituradas e é extraído um sumo. Designado como guarapa, esse sumo é canalizado para uma primeira filtração, segue a cozedura nos clarificadores e depois uma nova filtração que garante um extremo rigor no processo de aprimoramento do produto. Na fase seguinte, a guarapa entra nas evaporadoras para continuar o processo de cozedura e evaporação da água ainda existente. Na fase final, uma nova cozedura e a última filtração que antecede a introdução do xarope na caldeira de vácuo. Falta então o último passo, já mel-de-cana é passado para cubas de inox onde repousa e arrefece naturalmente. Como se trata de um produto alimentar, a Fábrica do Ribeiro Sêco segue todas as normas implementadas, procedendo a análises internas e externas como meio de controlo de qualidade. Depois é só embalar com marca própria, mediante as encomendas para que o mel-de-cana se mantenha uniforme e não haja adulteração. E claro, apreciar a doçura deste produto quase vitalício que após longos anos se encontra em excelentes condições para consumo.

Ao contrário de outros fabricos, aqui a produção é superior, uma verdadeira arte. “Esta continua a ser uma empresa ligada às tradições e por isso não quisemos acabar com o ponto de venda direto na fábrica. Ainda hoje, as pessoas podem cá vir com a sua embalagem e encher de mel-de-cana. Fazemos questão de mostrar à população e visitantes todas as fases de produção, que dura em média 23 horas. A fábrica encontra-se aberta no pico da produção, em meados de Abril, transformando-se completamente. Trabalhamos 24 horas por dia para fazermos uma nova produção e obter um produto diferente”, reforça João Carlos Melim.  Neste mês, a equipa de 8 pessoas aumenta para 50 colaboradores e a produção ronda os 100 mil litros de mel-de-cana de máxima qualidade.

Uma doce evolução

Atualmente, a Fábrica do Ribeiro Sêco apresenta duas vertentes de mel-de-cana: o Clássico, que segue a receita antiga e o Biológico, desenvolvido em 2007, cuja matéria-prima não tem qualquer produto químico. Desta forma, o produto é valorizado e vai ao encontro de um nicho de mercado que privilegia os produtos naturais. Contudo, não quis ficar para trás e com a evolução dos tempos, decidiu também apostar em novos produtos. Aproveitando o facto do mel de cana-de-açúcar ser a base principal do bolo de mel, um ex-líbris da Madeira, avançou para o fabrico do bolo de mel e broas de mel-de-cana. “Dada a adulteração que começava a existir na receita deste produto, tentamos chamar a atenção do consumidor para a preservação do verdadeiro bolo de mel-de-cana”, revela. Lançado o mote e tendo um kow-how profundo, a empresa apostou neste segmento, contando com parceiros de negócio que sabem fabricar este produto melhor do que ninguém. O conhecimento e a qualidade têm garantido o sucesso e começam a ser desenvolvidos outros produtos, como bombons e compotas.

Porém, o mel-de-cana não é apenas utilizado para a doçaria, na altura do Natal e Carnaval. Desmistificando esta ideia, a Fábrica do Ribeiro Sêco decidiu ir mais longe. Uma vez que o mel-de-cana é muito versátil e pode ter várias utilizações, tivemos o arrojo de lançar um livro com 62 receitas com a aplicação deste produto. Integramos nestas receitas outros produtos regionais e damos exemplos para ser usado em pratos, entradas e até na sopa”, salienta o sócio-gerente. Fortemente influenciado pelas condições do solo e clima da própria Ilha da Madeira, o mel-de-cana é rico em magnésio, cálcio, ferro e vitaminas. Basta dar asas à imaginação para perceber que este é um produto com um padrão e identidade muito próprio.

Em Portugal e no Mundo

Na região da Madeira, podemos encontrar os produtos da Fábrica do Ribeiro Sêco um pouco por toda a parte. Esta é já uma marca de referência e a sua fórmula de sucesso dispensa apresentações. No mercado externo, países como Inglaterra, França, Suíça ou Alemanha são alvos de exportação e solicitam as iguarias. Já em Portugal Continental e na ilha dos Açores, a Fábrica começou a dar os primeiros passos recentemente, através da cadeia Modelo Continente. Dignificar a qualidade dos produtos é um objetivo e, por isso, marcam ainda presença em lojas tradicionais e de estilo gourmet. “Tentamos sempre fazer mais e melhor, chegar a todos os nichos de mercado e encontrar novos parceiros. O crescimento do turismo levou-nos a inovar e a apostar em novas embalagens direcionadas para este público. Assim, no próximo ano vamos lançar algumas novidades, como as broas de mel com sabores e outros produtos derivados, sem esquecer o ingrediente principal: o mel-de-cana” assegura João Carlos Melim.

As novidades não ficam por aqui e a Fábrica do Ribeiro Sêco voltará a surpreender. Acompanhar as evoluções é fundamental e alguns equipamentos irão ser melhorados para rentabilizar a produção. Mas o grande desafio foca-se num estudo profundo sobre todo o processo, desde a matéria-prima até à obtenção do produto final. Este projeto revela-se pioneiro na Região Autónoma da Madeira e será partilhado com a comunidade científica pela sua relevância, enaltecendo o mel-de-cana como testemunha da história.

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