Motivados pela convivência com muitos artistas e intelectuais da época, os comendadores Sarah Beirão e António Costa Carvalho fundam, em 1964, a primeira Casa do Artista em Portugal, localizada em Tábua, no concelho de Coimbra. Os 44 hectares da Fundação Sarah Beirão e António Costa Carvalho recebem-nos com paisagens bucólicas, flores de todas as cores e respirando ar puro da montanha que nos envolve somos recebidos por Sérgio Cunha Velho, Presidente do Conselho de Administração. Em entrevista à Portugal em Destaque aponta os três grandes projetos que pretende concretizar em prol dos seus utentes e da evolução da fundação que preside.

Os comendadores Sarah Beirão e António Costa Carvalho deixaram o seu legado à comunidade tabuense. De que forma intervém esta instituição na vida dos tabuenses?
Esta foi a primeira Casa do Artista, inaugurada em 1964, e, ainda hoje, os artistas têm prioridade sobre qualquer pessoa que se queira inscrever na Fundação. Em 1985, foram aprovadas as alterações aos seus estatutos passando a considerar, como objetivo principal, a concessão de bens e a prestação de serviços de segurança social na área da população idosa, tornando-se numa Instituição Particular de Solidariedade Social. Atualmente dispomos das valências de ERPI – Estrutura Residencial para Idosos, Serviço de Apoio Domiciliário e Centro de Dia.

Referiu que tem um grande projeto para a instituição. Apresente-o.
O projeto tem três fases, sendo que o primeiro será o de ampliar a ERPI – Estrutura Residencial para Idosos. Vamos começar com a ampliação e restruturação da cozinha, dos pontos de armazenamento necessários para o seu normal funcionamento e a ERPI contará com mais cinco suítes. Pretendemos encurtar, ao máximo, o tempo de obra da cozinha de forma a não interromper as rotinas dos nossos utentes. A segunda fase passa por utilizar as instalações que temos no edifício contíguo num novo programa dedicado aos cuidadores informais, nomeadamente para a sua formação e acolhimento. A terceira fase passará pela recuperação de um solar que está dentro da quinta, transformando-o numa Casa das Artes.

O projeto dedicado aos cuidadores informais será um complemento à legislação recentemente aprovada?
Os cuidadores informais têm sido esquecidos por todos. Desenvolvem um trabalho muito pesado a nível físico e emocional sem terem, por norma, formação específica para cuidarem das pessoas que têm a cargo. É um trabalho que representa muitos milhões de euros em Portugal, as pessoas que o efetuam não têm sido convenientemente tratadas pelo Estado e espero que este programa venha a ser um complemento às medidas de apoio ao cuidador informal que surgiram recentemente. O nosso objetivo, ao abraçar este programa, é o de prestarmos aos cuidadores informais todo o apoio que necessitam, desde apoio logístico passando pela formação teórica, com muita incidência na formação prática nas nossas instalações e nas casas dos formandos. Nunca foi efetuado um levantamento de quantas pessoas desenvolvem esta atividade em Portugal e, pelas pesquisas que efetuei, não há informações precisas deste número noutros países europeus. O que pretendo fazer em Tábua é, juntamente com os presidentes das juntas de freguesia e restantes entidades locais, proceder à identificação dessas pessoas para nos podermos deslocar às suas casas e caraterizá-las, para posteriormente elaborarmos programas adequados às suas necessidades, porque o cuidador informal que acompanha diariamente um idoso não terá as mesmas necessidade que tem um que cuida de uma criança ou jovem que tem uma patologia que exige a sua permanência 24 horas por dia, são realidades muito distintas.

O programa não fica por aqui…
Queremos ir mais além no sentido de disponibilizarmos uma parte das nossas instalações. Numa fase inicial disponibilizaremos dois quartos, dentro das instalações da Fundação, para proporcionar o merecido descanso dos cuidadores. Os cuidados continuados só são previstos a médio/longo prazo e nós vamos prevê-los a curto prazo, ou seja, se o cuidador quiser descansar num fim de semana ou passar uma ou duas semanas de férias nós vamos proporcionar-lhe esse descanso trazendo para a Fundação a ou as pessoas que eles estão a cuidar. Se for necessário cuidar das pessoas durante mais do que esse tempo celebraremos um protocolo com uma entidade que dispõem essa valência, e é nossa parceira, para podermos corresponder às necessidades desse cuidador informal. Um dos maiores problemas que os cuidadores enfrentam são problemas relacionados com a sobrecarga e o isolamento e consequentemente problemas do foro psiquiátrico como depressões e outros porque não são valorizados, nem remunerados, nem reconhecidos pelo trabalho meritório que desempenham. Muitos deixam de trabalhar para puderem cuidar dos seus familiares, o que causa uma baixa no rendimento familiar e empurra as famílias para situações de pobreza. Por isso, achamos que o Estado deve reconhecer a profissão ou estatuto de cuidador informal e nós, IPSS, estaremos na retaguarda para ajudar. Entendemos que estas pessoas têm direito a descansar, remuneração mensal e outras regalias de um trabalhador normal.

As IPSS`s desenvolvem um trabalho meritório mas, no geral, referem que o estado ajuda muito pouco. Partilha desta opinião?
O estudo de 2017 da CNIS – Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade indicava que por cada (um) euro que as IPSS`s recebem o transformam em cerca de três, mas o último já apontava para 4.2 euros; ou seja, as IPSS são entidades rentáveis para o Estado. Recebemos pessoas que pagam mensalidades muito baixas e o valor que o Estado nos atribui por cada utente é significativamente baixo para cobrir as necessidades básicas de cada um. Felizmente a Fundação Sarah Beirão António Costa Carvalho tem um vasto património que permite fazer face às despesas inerentes ao normal funcionamento da instituição.

A terceira fase, referente à recuperação do solar encerra este grande projeto. Em que consistirá a Casa das Artes?
Pretendemos recuperar o solar que temos dentro dos limites da Fundação, que contará com oito suítes de luxo destinadas, prioritariamente, a pessoas que queiram vir criar arte retrocedendo à origem desta fundação, por este motivo a batizaremos como Casa das Artes. O intuito desta casa será o de receber artistas que queiram criar arte – escrevendo um livro, pintando um quadro ou idealizando o guião de um filme – usufruindo das comodidades de uma casa de luxo com piscina, sauna, piso radiante, entre outros detalhes de conforto. Aproveitando a presença dos artistas vamos convidá-los a apresentarem as suas obras num polivalente – que será o nosso Centro de Dia e de Convívio – que terá um palco para receber as suas obras.
Os projetos que referiu serão para concretizar dentro de quatro a cinco anos, mas existe outro que abrange a franja da população estrangeira em Portugal. Apresente-nos um pouco desse projeto.
Esse será um projeto mais arrojado que passará pela construção de uma aldeia sénior internacional. Temos todas as condições para isso e queremos que a população nacional e estrangeira conheça o nosso potencial e já temos interessados. Serão vivendas T1 com 55 m2, totalmente independentes. A vivência será como se tratasse de uma casa em qualquer outro local, a diferença é que têm a proximidade de uma entidade que os pode auxiliar em caso de necessidade e que lhes oferece serviços de refeição e limpeza mediante solicitação prévia.

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