Marco Martins está há seis anos à frente dos destinos da autarquia de Gondomar, concelho conhecido pela sua tradição e conhecimento na arte de trabalhar a filigrana. Dada a importância que esta atividade tem para a região, a sua importância histórica e unicidade, a Câmara Municipal de Gondomar avançou com a candidatura a Património Cultural e Imaterial da Humanidade. Este foi o mote para a entrevista concedida à Portugal em Destaque, mas o autarca falou também das características do seu concelho e dos projetos vindouros.

Há mais de 20 anos ligado à política, Marco Martins é conhecido como o presidente de Junta de Freguesia eleito com maior quantidade de votos, aquando da eleição para a freguesia de Rio Tinto. O passo seguinte foi a candidatura à Câmara Municipal de Gondomar, onde já concluiu um mandato, entre 2013 e 2018. “O principal problema que encontrei foi o endividamento da Câmara, que obrigou à existência de um limite de endividamento, que ainda permanece. Começámos a abater a dívida e já conseguimos reduzir o valor em cerca de 50 milhões de euros. Ao mesmo tempo, temos feito uma aposta na requalificação do espaço público e da rede viária do concelho, tendo já conseguido recuperar cerca de 400 quilómetros de estradas”. A qualidade de vida no concelho também melhorou significativamente, sobretudo no que respeita à criação de parques urbanos – o primeiro deles em Rio Tinto: “já temos adjudicado mais dois parques urbanos, um deles na fronteira entre Fânzeres e S. Cosme e outro aqui mesmo, em Gondomar”. Outro projeto significativo já levado a cabo foi a criação do Parque das Serras do Porto, um projeto metropolitano, que contempla uma área de seis mil hectares e representa uma alternativa para quem gosta de Turismo de Natureza.
Há três anos, a autarquia levou a cabo o lançamento da Expo Gondomar, que congrega uma mostra de todas as atividades económicas com maior expressão no concelho, nomeadamente nas áreas das novas tecnologias, robótica, marcenaria e a ourivesaria. “Sempre tivemos um certame próprio para a ourivesaria, onde o grande destaque era, obviamente, a filigrana. Chama-se Ourindústria e já tem mais de 25 anos de existência. Porém, em 2019 iremos inovar e faremos a quinzena de promoção económica de Gondomar. Realizar-se-á em maio, no Pavilhão Multiusos e os primeiros dias serão dedicados a todas as atividades económicas, sendo que os últimos dias estarão exclusivamente reservados para a ourivesaria”.

Filigrana: a arte da ourivesaria gondomarense
A filigrana é uma arte centenária. Com mais de 200 anos de existência, é uma atividade que emprega mais de três mil pessoas no concelho e cada oficina tem a sua forma própria de trabalhar, existindo mesmo alguma competitividade entre elas. “Existem dezenas de oficinas de filigrana em Gondomar e a maior parte delas funciona na casa dos próprios ourives. É uma arte de gerações, cujo conhecimento e formação é feito de pais para filhos. Quando me candidatei ao primeiro mandato para a Câmara Municipal, tinha como principal objetivo para o concelho mudar a sua imagem de marca. Criámos o slogan ‘Gondomar é D’Ouro’, para estabelecer um paralelismo entre a arte da ourivesaria e o rio Douro, que são duas das grandes riquezas de Gondomar. Depois de ganhar a presidência da autarquia, iniciámos então a operação para alterar a imagem do concelho aos olhos dos gondomarenses e dos restantes portugueses”.

Inovação e internacionalização de uma arte secular
O primeiro passo para dinamizar e dar a conhecer a filigrana foi sentar todos os ourives do concelho há mesma mesa. “O vereador do Turismo, Carlos Brás, decidiu criar a Rota da Filigrana, para permitir dar a conhecer esta arte de uma forma organizada e cultural, de forma a assegurar que, quem vinha conhecer este produto único, ficava a conhecê-lo por dentro. Assim, o primeiro passo foi permitir que as pessoas visitassem as oficinas dos ourives que produziam peças em filigrana – e esse foi também o nosso primeiro desafio, porque os ourives não gostaram da ideia de abrir a oficina ao público”.
Todavia, cinco ourives aceitaram o desafio e a Rota da Filigrana teve início. Na segunda fase do projeto, mais quatro oficinas juntaram-se e, atualmente, já são 16 os ourives participantes nesta Rota: “este projeto tem sido um sucesso. Temos vários operadores turísticos que trazem turistas ao Porto e, além do percurso Porto-cidade, Porto-Caves do Vinho do Porto ou os percursos pelo rio Douro, promovem também a Rota da Filigrana, garantindo que os turistas ficam a conhecer os pormenores do trabalho necessário para criar uma peça de filigrana, sejam gargantilhas, brincos ou anéis. Além disso, muitos portugueses também já vieram conhecer esta Rota”. Os próprios idosos do concelho, através do programa ‘idade d’ouro’, que permite a quem tem mais de 65 anos aceder a várias atividades, têm acesso ao percurso da Rota da Filigrana. “Tivemos muito sucesso com esta iniciativa a nível nacional, mas a filigrana também já é conhecida internacionalmente. Isso resultou da candidatura a um Fundo Comunitário, que a autarquia de Gondomar venceu, e que lhe permitiu levar empresários da ourivesaria a várias feiras, em Londres, Paris e ao Oriente, nomeadamente a Tóquio e a Hong Kong, onde a filigrana foi um sucesso. Os chineses são grandes apreciadores destas peças e, logo nas primeiras deslocações, os empresários viram muitas peças serem adquiridas e ficaram com encomendas para mais de um ano de trabalho”.

A certificação da filigrana nacional e a candidatura a Património Cultural e Imaterial da Humanidade
Percebendo a importância desta arte, a Câmara Municipal de Gondomar, onde está instalada 90 por cento deste tipo de ourivesaria, e o município de Póvoa do Lanhoso, que têm também ligações à filigrana, uniram-se para proceder à certificação da verdadeira filigrana. “A filigrana é uma arte. Todo o trabalho é feito à mão, leva bastante tempo e cada peça é única. Para conseguirmos distinguir entre a verdadeira filigrana e outra, vinda do exterior e que é industrializada, criámos uma marca, que se chama ‘Filigrana de Portugal’. Atualmente, já quase todas as ourivesarias e lojas de rua exigem esse certificado para vender peças de filigrana. Só as peças que tenham esse certificado é que são verdadeiras. São nacionais e autênticas”.
Essa marca é feita numa contrastaria – a Contrastaria da Imprensa Nacional da Casa da Moeda tem três pólos, um em Lisboa, outro no Porto e outro em Gondomar e era neste concelho que eram cravadas mais de 60 por cento de todas as peças de ouro e prata produzidas em Portugal. “A contrastaria é o local onde é feita a marcação das peças, cada uma de acordo com o tipo de peça que é, o que lhe dá a sua autenticidade”.
A Certificação destas peças e a renovação das gerações de ourives deram à arte da produção de filigrana novo fôlego e justificaram a sua candidatura a Património Cultural e Imaterial da Humanidade. “Os filhos dos ourives têm agora acesso a novas tecnologias, à internet, e são quase sempre formados universitariamente. O design e a inovação estão atualmente muito presentes nestas peças e cada ourives tem uma coleção de peças únicas para mostrar, muito para além dos típicos corações – a peça icónica desta arte em ouro – brincos, gargantilhas e anéis. Esse renascer da arte fez-nos avançar para a recolha de material histórico sobre esta arte e candidatá-la a Património Imaterial da UNESCO”.
Para promover essa candidatura, a Câmara Municipal de Gondomar voltou a reunir os ourives e propôs-lhes a construção de um coração gigante, em filigrana. “É o maior coração de filigrana do mundo e cada ourives teve a possibilidade de produzir uma parte do seu interior, para que quem participou pudesse mostrar um pouco a sua arte. O desafio agora é torná-lo itinerante, para que possa estar presente em feiras e certames e seja o representante oficial da filigrana e o seu principal promotor”.
Em jeito de conclusão, o presidente da autarquia gondomarense afirma que, paralelamente, existem também apoios à instalação de empresas no concelho, até porque está a ser pensada a construção de zonas industriais, respeitando o PDM e menciona também o grande projeto dos anos vindouros – a chegada do metro ao centro do município: “só se pode ser um verdadeiro autarca se se estiver em casa e é o meu caso. Quero garantir que Gondomar fica bem capacitado – a nível de infraestruturas, serviços e qualidade de vida – para ter capacidade de caminhar por si próprio. Esse é o meu objetivo último”.

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