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Beleza natural, ondas únicas e ruelas cheias de história fazem da Ericeira uma vila de encantos e desafios. Filipe Abreu chegou a esta Junta de Freguesia em 2013 e, quatro anos depois, garante, em entrevista ao Portugal em Destaque, que continua com o mesmo espírito de serviço público.

35 km a noroeste do centro de Lisboa encontramos a Ericeira, freguesia do concelho de Mafra. Com 12,19 km² de área e 10.300 habitantes, trata-se de uma vila muito antiga, presumivelmente local de passagem e instalação dos Fenícios.
A história da Ericeira remonta, assim, a cerca de 1000 a.C.. O seu primeiro foral data de 1229, concedido pelo então Grão-Mestre da Ordem de Avis, Dom Frei Fernão Rodrigues Monteiro, que desta forma instituiu o então Concelho da Ericeira.
Mas, avancemos no tempo até 2017. É uma vila onde, nas pitorescas ruelas, se cruzam marcas desta história com a jovialidade dos habitantes e visitantes, aquela que o Portugal em Destaque encontra.
A Junta de Freguesia fica bem no coração da vila, no Largo do Pelourinho. O edifício “já foi Câmara Municipal, escola pública, Junta de Freguesia, esquadra da PSP e posto da GNR”, conta Filipe Abreu, enquanto nos recebe.

Freguesia sempre com novos desafios diários
Há quatro anos que Filipe Abreu dirige os destinos da Ericeira, mas é já vasta a sua experiência como autarca. “Comecei em 1982 como membro da Assembleia Municipal de Mafra. Depois de 1990 a 2005 cumpri quatro mandatos, ou seja 16 anos, como vereador da Câmara Municipal de Mafra e, há quatro anos, convidaram-me para concorrer aqui à Junta de Freguesia, dada a experiência e a ligação que tenho desde sempre à Ericeira”, descreve.
É com sentido de missão que encara o dia a dia como presidente da Junta de Freguesia. “Uma vez que uma pessoa seja autarca, fica sempre com o espírito de autarca, e eu desde 1982 que o tenho. Gosto do serviço público, de realizar coisas e resolver problemas”, afirma, salientando que, na Ericeira, “todos os dias aparecem novos e múltiplos desafios”.
Questionado sobre projetos já realizados, o autarca destaca “a marcha da Ericeira que se tem apresentado no concelho e fora do concelho com muita qualidade; o mercado e as festas dos Santos Populares; e as constantes obras de melhoramento do património público edificado, do equipamento urbano, quer de recuperação do que está degradado, quer de introdução de novos equipamentos”. Foi também por sua intervenção que a Junta de Freguesia deixou de “ser mais uma entidade a prestar diretamente apoio social, fomentando antes a sua articulação e dando apoio aos vários agentes que, na Ericeira, prestam este tipo de serviço”. Tendo os planos traçados no início do mandato “praticamente cumpridos”, Filipe Abreu foca-se, agora, em dar resposta àquele que considera o grande e permanente desafio na Ericeira: a limpeza urbana. “Temos sido afetados por uma alteração climática que faz com que as ervas subsistam o ano todo, e é muito complicado manter a limpeza nesse aspeto. Para além disso, com a atração de cada vez mais pessoas pela qualidade de vida proporcionada e, também por via do surf e da generalidade dos desportos de água, a Ericeira já quase não é sazonal e isto traz, também, algumas coisas menos boas… Temos 33 funcionários e sentimos que não é suficiente para, em tempo útil, resolver os múltiplos problemas que nos surgem todos os dias”, revela.

Ericeira: surf e qualidade de vida
A Ericeira tornou-se Reserva Mundial de Surf a 14 de outubro de 2011, por consagração pela organização internacional Save the Waves Coalition. Foi a segunda Reserva distinguida a nível global, permanecendo a única da Europa até hoje. A Reserva estende-se numa faixa costeira que concentra sete ondas de classe mundial num espaço de apenas 4 km: Pedra Branca, Reef, Ribeira d’Ilhas, Cave, Crazy Left, Coxos e São Lourenço.
O presidente da Junta de Freguesia recorda que foi há precisamente 40 anos que se realizou o primeiro Campeonato Nacional de Surf, em Ribeira d’Ilhas. “No final dos anos 60, início dos anos 70 começou o surf na Ericeira, fundamentalmente com estrangeiros – americanos, australianos e ingleses, mas também com alguns portugueses. Hoje são cada vez mais os praticantes de todo o mundo que acorrem à nossa costa, ficando alojados em hostels e alojamentos locais, havendo já um grande número de escolas de surf que acolhem muitos deles para se iniciarem nas diversas modalidades”.
Muitos acabam mesmo por se fixar pela Ericeira. “Muita gente que tinha casas de férias e fins de semana acabou por vir morar para aqui. Havia também muitos apartamentos para alugar e vender e hoje está praticamente tudo ocupado”, refere o autarca, explicando que as pessoas “valorizam a qualidade de vida da Ericeira e a proximidade a Lisboa, com ótimos acessos e a escassos 25 minutos do aeroporto”.

Ericeira: tradição e identidade
Mas nem só das ondas se fazem os encantos da vila. Quem passa pela Ericeira encontra marcas de uma forte atividade piscatória e, nesse sentido, não deve deixar de visitar o seu porto. Encontra também igrejas e capelas que evocam a história e as tradições locais. A Igreja de São Pedro da Ericeira, ascendeu a templo principal em 1530, época a que pertence a imagem renascentista de S. Pedro, e anualmente celebra-se no seu adro a festa de Nossa Senhora da Conceição e o arraial de São Pedro. Também em plena vila está a Igreja da Misericórdia, um monumento Barroco, onde se destacam as pinturas ‘Visitação’ e ‘Virgem da Misericórdia’, da autoria de Manuel António de Góis, visíveis no templo-museu. A Capela de São Sebastião, de planta hexagonal, remonta aos séculos XV/XVI e encontra-se na zona norte da vila, no Largo com o mesmo nome, junto às praias do Algodio ou do Norte e de São Sebastião. Desde há muitos anos que no final de janeiro se realizam junto à capela as Festas em Honra de S. Sebastião e S. Vicente, em tempos a maior celebração da vila e arredores.
Já a Capela de Nossa Senhora da Boa Viagem e de Santo António fica num pequeno pátio com vista privilegiada sobre o Atlântico, no centro da Ericeira. É local de celebração anual das festas em honra de Nossa Senhora da Boa Viagem, padroeira dos pescadores da Ericeira, no terceiro fim de semana de agosto.

Espreitar o futuro
Preservar esta identidade da Ericeira, perante as alterações trazidas pela atratividade do surf e a exploração turística, é uma preocupação da Junta da Freguesia. “Não queremos ser uma freguesia só para turistas”, afirma Filipe Abreu. “Nesse sentido, temos tentado minimizar os impactos provocados pelo grande afluxo de gente que demanda a Ericeira, que na época alta atinge o triplo da população residente”.
O objetivo é que “quer quem vive na Ericeira, quer quem a visita se sinta bem”. Até porque “quando os que a visitam deixarem de se sentir bem, isso terá reflexos negativos nas atividades económicas e nos habitantes da Ericeira que têm nelas o seu sustento”.
Questionado sobre o futuro, o presidente da Junta de Freguesia reafirma a importância de procurar ter “mais e melhores meios para a limpeza urbana, de modo a melhorá-la substancialmente”. Fala também na intenção de “modernizar e atualizar a sinalética turística e rodoviária que está dentro da vila, tornando-a mais eficaz e agradável do ponto de vista estético” e de evitar “o estrangulamento em alguns locais onde os carros são deixados, acabando por provocar constrangimentos ao normal fluir do trânsito pedonal e rodoviário”.
Filipe Abreu terminou deixando uma mensagem aos seus conterrâneos: “temos muito trabalho ainda pela frente, pelo que todos estão sempre convocados a colaborar na sua concretização, de modo a que o espaço onde habitamos seja cada vez mais amigo do ambiente e, agradável para vivermos”.

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