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Losménio Goulart

 

Estávamos em 1949 e um grupo de vitivinicultores da Ilha do Pico, conscientes da necessidade da existência duma estrutura que reunisse boas capacidades de produção e económicas, decidiu constituir a Cooperativa Vitivinícola da ilha do Pico. Após um período de organização e construção da sede, a Adega da CVIP iniciou a laboração no ano de 1961, exclusivamente com as castas nobres, Verdelho, Arinto e Terrantez do Pico, sendo o primeiro vinho lançado no mercado, no ano de 1965, com o nome “Pico”. Construída inicialmente a pensar na vinificação de um vinho licoroso branco com base naquelas castas, esta Cooperativa, no entanto nunca conseguiria tornar rentável para os seus associados a comercialização de um vinho obtido a partir das mesmas. Por isso, optou por vinificar a partir de 1972, também as uvas tintas de produtores diretos, que na ilha se cultivavam e que tinham sido introduzidas na região. “Com a introdução das castas americanas, o enfoque da Adega passa a ser a produção dos vinhos de cheiro, tendo sido durante décadas o grande motor desta cooperativa”, acrescenta o Presidente do Conselho de Administração, Losménio Goulart.
Destas castas americanas, chegou o conhecido “vinho de cheiro”, que até hoje ainda se pode encontrar na Cooperativa, sob a marca “Cavaco”. Desde o início da década de 90, e na sequência de importantes trabalhos ao nível experimental, foram dados passos significativos para a melhoria da qualidade de todos os vinhos. Seja pela valorização das uvas produzidas até então e consequente pagamento justo ao produtor até à introdução de novas castas. O alargamento substancial das áreas cultivadas, em especial das castas nobres tradicionais e o aparecimento de novos viticultores , resultam num aumento de produção de uvas e obrigam à constante adaptação da estrutura física e tecnológica na CVIP.

Variedades únicas, características únicas
“A Adega, até finais da década de 90, produzia duas referências, o Vinho de Cheiro e o Vinho Licoroso. Depois começaram a trocar o barril pela garrafa e aperceberam-se da necessidade de existir um vinho branco de mesa. Assim, surgiu o Terras de Lava Branco, em 1993, que era uma mistura das castas tradicionais e europeias brancas”, recorda o presidente. E se o Lajido foi o primeiro Vinho Licoroso de Qualidade Produzido em Região Determinada, com características especiais, a ele se juntaram o Terras de Lava e o Basalto Tinto, resultante de um blend das castas tintas europeias e americanas.
2003 é o ano do lançamento de mais um vinho branco, o Frei Gigante, de castas tradicionais brancas, abrangido já pelo Estatuto dos Vinhos Regionais dos Açores. “O nosso ex-libris é o Frei Gigante, um vinho branco, que são fortes na região”, completa. Mais tarde, em 2007, surge o vinho rosé Terras de Lava e no ano seguinte é comercializado o tinto Maroiço. Com o objetivo de produzir vinho de qualidade num processo de melhoria contínua, a Picowines apostou em monocastas e em nichos de mercado. “Aproveitando que muitos dos nossos associados preferiram apostar nas castas tintas europeias em vez das brancas tradicionais apostamos, para além de um blend em dois vinhos Monocasta comercializados com a Marca Terras de Lava Merlot e Terras de Lava Syrah”, conta Losménio Goulart.
Por um lado, os vinhos brancos, como Verdelho, o Arinto dos Açores e o Terrantez do Pico já sofreram mutações genéticas ao longo dos séculos e constituem castas perfeitamente adaptadas ao clima e condições do solo, sendo plantadas próximo da zona costeira. No entanto, Losménio Goulart acredita que, no futuro, os vinhos tintos se possam distinguir e alcançar um reconhecimento de qualidade, tendo em conta as previsões do aumento médio da temperatura do ar para as próximas décadas. “Apesar de não ter o corpo de um vinho do Douro ou do Alentejo, é um vinho que já se diferencia pelas suas características muito próprias. Há que ter noção que é um vinho tinto de uma região vulcânica e só existem 7 regiões vulcânicas no mundo a produzir vinho, sendo o Pico uma delas. O solo vulcânico oferece determinadas características que não são comparáveis com mais nenhuma zona do país”, acrescenta.

Qualidade reconhecida
A localização, o solo, o clima e o espaço vulcânico definem o terror e proporcionam características que diferenciam os produtos da Picowines de todos os outros, pela sua salinidade e mineralidade, frescura e acentuada acidez. Prova disso são as medalhas que têm recebido em feiras e certames em que marcam presença. “Temos tido excelentes participações a nível internacional. São vinhos muito aromáticos e frescos que acompanham bem pratos de peixes e carnes brancas”, frisa o Presidente do Conselho de administração.
Atualmente, com cerca de 160 associados ativos, de um total de 250 cooperantes, a CVIP tem laborado anualmente uma média de 500 toneladas de uvas, repartidas entre castas para vinho licoroso, para Vinho Regional Açores (branco e tinto) e para vinho de mesa. “Em 2009, ultrapassamos as 700 toneladas de uva, foi o melhor ano de sempre. Neste momento, temos capacidade instalada para trabalhar acima disso. Estamos dependente dos associados e da produção das vinhas”, comenta o nosso entrevistado. A CVIP, considerando a pequena dimensão das explorações vitícolas, tem desempenhado um papel determinante na afirmação dos vinhos do Pico no mercado.

Dinamização e inovação
Como forma de diversificar mercados, a Cooperativa Vitivinícola da Ilha do Pico, delineou uma estratégia: continuar a apostar no mercado regional como um foco mas não único, estimulando outros mercados, dinamizar as vendas diretas e o enoturismo e ainda a participação em feiras internacionais e eventos de promoção do produto. Assim, têm sido promovidas vários tipos de visita à Adega, com provas de vinho incluídas e conhecimentos sobre os produtos da região. A participação em certames como o Prowein Dusseldorf ou o Boston Wine Expo e o estabelecimento de parceria com a LCBO (Liquor Control Board of Ontario) no Canadá são prioridades desta estrutura que pretende divulgar os seus vinhos além-fronteiras e chegar até ao mercado da saudade, uma vez que os emigrantes constituem grandes apreciadores.
“Temos alcançado posicionamento no mercado com o lançamento de novos produtos. Resolvemos apostar no Cavaco Fizz, com vista o aproveitamento das uvas de cheiro, dos produtores diretos, produzindo um produto de valor acrescentado”, explica Losménio Goulart.
A inovação e o avanço tecnológico, com o melhoramento de equipamentos da adega que permitam maior rentabilidade constam como primazia da CVIP. Desta forma, adquiriram um equipamento laboratorial para análise química do vinho (FTIR – Winescan) e um filtro tangencial. As cubas de fermentação com controlo informático da temperatura e uma nova linha de enchimento e rotulagem fazem parte dos planos da administração. “Queremos ter um produto diferenciado e prestar todo o apoio necessário aos viticultores. Realizar visitas regulares às vinhas, através dos nossos técnicos de viticultura e deste modo prestar um acompanhamento de terreno eficaz, para garantir a qualidade das uvas que vamos receber e consequentemente salvaguardar a qualidade do produto final”, conclui.

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