Esta é a expressão que melhor caracteriza a Valsteam ADCA, empresa familiar situada no Parque Industrial da Guia, no concelho do Pombal, e gerida por Fernando Soares (fundador), Adozinda Cachulo (esposa), Mónica Soares (filha) e Fernando Soares (filho). A Portugal em Destaque esteve nas instalações da Valsteam e deixa, agora, os nossos leitores com a entrevista realizada ao responsável pela origem do projeto, Fernando Soares.

Queria que começasse por fazer uma breve contextualização histórica para que melhor possamos perceber as raízes da empresa, bem como o seu percurso profissional até chegar aqui.

Depois do serviço militar “assentei praça” novamente como orçamentista no dia 8 de Janeiro de 1980 numa casa centenária em Lisboa (que tinha na altura 150 anos) e era considerada como uma “empresa escola”. Mais tarde fui convidado para outra empresa – como projetista – que se dedicava quase a 100% ao projeto e montagem de redes de fluídos para processos industriais, com especial incidência nos sistemas de vapor.

Em 1983 nasce a minha filha e a situação que se vivia na empresa (ordenados em atraso) não era compatível com a nova realidade familiar, assim, apesar da boa posição e vencimento que tinha, fui obrigado a procurar outra vida. Naquele tempo era possível fazer empresas com pouco dinheiro, como se diz normalmente “usando o pelo do mesmo cão”, faturava-se, pagava-se a quem se devia e ficava-se com o restante. Assim, com um colega e dois dos ex-patrões iniciei-me como empresário. Foi praticamente um acidente, não tinha quaisquer planos ou ambições nessa matéria.

Digamos que as raízes da Valsteam remontam a 1984 pois sendo eu na altura a liderar toda a parte de projeto, comecei logo de início a conceber alguns produtos “standard” maioritariamente fabricados em aço de construção, instalando-os ou vendendo-os a outros instaladores e distribuidores de equipamentos industriais. Alguns dos produtos que hoje fabricamos vêm desse tempo.

Quais os marcos mais importantes que a vossa atividade já atravessara?

Por desacordo com os outros sócios acabei por vender a minha quota e fazer outra sociedade em 1988, desta feita apenas com a minha esposa . Esta sociedade dedicava-se ao mesmo mas complementado com a importação de alguns produtos que juntávamos aos que fabricávamos. O marco mais importante foi exatamente a perda de uma dessas marcas de válvulas e purgadores (equipamentos análogos aos que hoje fabricamos). Isso aconteceu em 1994, quando uma multinacional simplesmente comprou a marca italiana que importávamos e de repente ficamos sem solução aparente, pois não havia outra marca disponível para Portugal, com uma gama completa. Digo aparente porque, em desespero, por não encontrar uma marca alternativa, disponível para o nosso mercado, “meti na cabeça” o que se julgava impossível: fazer uma fábrica de válvulas e equipamentos para sistemas de vapor num país sem qualquer tradição relevante na matéria.

O projeto inicia-se e avança, mantendo-se a empresa com uma atividade mista – instalador/fabricante – o que, sendo um pouco atípico, era a única solução, visto não haver capital disponível para simplesmente encerrar uma das atividades e recomeçar com outra. Mas isso viria a mudar.

Em 1998 fizemos essa mudança radical. Vendemos a casa de família e um pequeno pavilhão industrial que tínhamos na zona de Lisboa e mudámo-nos para o distrito de Leiria, na esperança de encontrar terrenos mais baratos onde pudéssemos construir “A Fábrica”. A partir de 1998 nunca mais aceitámos fazer instalações e passámos a assumir-nos apenas como fabricantes.

Depois de vários pavilhões alugados entrámos no ano de 2012 em instalações próprias na zona industrial da Guia.

Qual o balanço que faz sobre o investimento nas novas instalações?

O balanço é evidentemente positivo. Não tínhamos espaço e não tínhamos energia elétrica suficiente para adquirir as máquinas que pretendíamos instalar. A produção já estava dispersa por quatro pavilhões, com os transtornos e quebras de produtividade consequentes, e em termos de imagem, esta também já não era a melhor.

Quais as valências e equipamentos que disponibilizam?

O que acabámos por fazer foi repor a gama inicial que perdemos na década de 90. Fabricamos uma gama completa de equipamentos para sistemas de vapor e somos o único fabricante de pequena dimensão a fazê-lo. Para além disso, somos capazes de fazer em curto espaço de tempo produtos não “standard”, “taylor made”, o que nos coloca em vantagem quando os clientes se confrontam com a inércia das grandes companhias.

Como caracteriza o vosso cliente?

Os equipamentos que fabricamos destinam-se sobretudo à indústria de processo. Portanto, todas as indústrias são potenciais clientes para algum dos nossos produtos, mesmo que não utilizem vapor saturado. Para além dos sistemas de vapor e recolha de condensado, fabricamos válvulas e aparelhos para sistemas de gases industriais (ar comprimido, azoto, oxigénio, CO2, etc), óleo térmico, agua sobreaquecida entre outros menos comuns.

Quais as diferentes indústrias com que interagem e que tipo de suporte/aconselhamento conseguem oferecer?

Como já referido, fabricamos equipamentos aplicáveis em todos os tipos de indústria: pasta e fabrico de papel, têxtil, alimentação e bebidas, borracha, mineira, química, petroquímica, farmacêutica, cosmética, etc. Em Portugal (que representa menos de 5% das nossas vendas), apoiamos os clientes diretamente desde a fase de projeto, seleção de equipamentos, dimensionamento e auditoria energética, dependendo das necessidades do cliente. No exterior, não vendemos a clientes finais mas sim através de agentes. Esses agentes são formados por nós de forma a assegurar esse apoio técnico.

Quais os mercados onde estão presentes?

A Valsteam ADCA vende em todo o mundo. Sempre exportámos mais de 95% da nossa produção. Só existe um país industrializado onde ainda não vendemos: o Japão. Evidentemente que o volume de vendas para certos mercados é muito condicionado pelas razões mais diversas. Não é possível ser competitivo no Brasil enquanto os produtos pagarem as taxas alfandegárias que pagam. Na Argentina, Venezuela, Bangladesh, entre outros, as condições são também problemáticas pelas razões conhecidas. Ainda assim, mesmo nos casos mais difíceis, há sempre alguma coisa que conseguimos vender. Na Índia, por exemplo, só conseguimos entrar quando introduzimos a nossa linha Adcapure em 2015, destinada à indústria farmacêutica.

O mundo empresarial cada vez se distingue mais pelos desafios que enfrenta e as novidades que abrange. Nessa perspetiva, como é que a Valsteam ADCA Engineering se destaca?

É uma pergunta pertinente. Curiosamente, ao contrário de outros setores, onde as multinacionais normalmente fazem os mais pequenos desesperar para os acompanhar, no nosso ramo a tendência nas últimas duas décadas é usar o que está feito. Por outras palavras, as grandes empresas parecem mais empresas da área financeira do que fabricantes com uma grande componente de engenharia. Utilizam alguma cosmética mas na realidade poucos investimentos fazem um desenvolvimento de produtos verdadeiramente novos e inovadores. As pequenas empresas como a Valsteam vão apresentando algumas soluções alternativas que nem sempre são de implementação fácil porque o utilizador final, condicionado e mentalizado pela oferta standard dos grandes não valoriza de imediato. Temos alguns exemplos na empresa e conhecemos situações semelhantes noutras pequenas empresas fabricantes de válvulas, principalmente na Europa.

Procuram ir a feiras do setor ou a outro tipo de eventos de modo a atualizarem-se e a abrangerem outras áreas de atuação?

Sim, normalmente participamos numa grande feira do setor (na Alemanha), onde se encontram potenciais clientes de todo o mundo. Intercalamos depois com outras mais específicas, quando interessam. No resto do mundo estamos presentes através dos nossos agentes, comparticipando nos custos da exposição.

Qual a sua opinião sobre a atualidade do setor em que estão inseridos?

Acreditamos que o negócio deste setor cresce na proporção do crescimento da população mundial. De facto, a utilização de vapor (e outros fluídos industriais) é fundamental na produção de quase tudo o que comemos, vestimos, calçamos e usamos. Assistimos, na Europa, a algum desinvestimento na indústria transformadora, como por exemplo, a têxtil. Não significando que andemos nus ou que deixemos de usar toalhas e lençóis! A energia e investimento Europeus, outrora aplicados nestes setores, foram deslocalizados para outras regiões do globo, como se sabe. A questão é que na maioria desses países surgiram, entretanto, também fabricantes locais de válvulas, o que faz com que, neste momento, exista um sobredimensionamento do setor. Para agravar, muitos dos fabricantes de válvulas que se dedicavam e se mantinham ocupados com a indústria petrolífera, e como consequência do congelamento de muitos investimentos nessa indústria, voltaram-se para outras áreas da indústria transformadora, sobrecarregando a oferta no setor. Muitas empresas familiares têm sido adquiridas e integradas em grandes grupos. Neste aspecto, a Valsteam ADCA congratula- se por sempre ter procurado incluir na sua oferta, produtos mais específicos e de alguma sofisticação tecnológica, tornando-se flexível, inovadora e, portanto, uma empresa viável num mercado tão complexo.

Sente que a atividade enfrenta algum obstáculo na diversidade da sua evolução?

Posso dizer-lhe que existe alguma dificuldade em encontrar pessoas para aprender uma profissão, uma vez que optámos por formar o nosso próprio pessoal. Mas não podemos dizer que isso seja um obstáculo. Digamos que a “máquina” do estado ainda está, em determinados setores, ao nível da primeira revolução industrial. É o que temos!

Neste momento, quantos colaboradores emprega?

61 colaboradores (incluindo quatro acionistas trabalhadores).

Qual a filosofia que se encontra subjacente à vossa forma de estar no mercado?

Queremos manter o perfil de empresa familiar, operando no mercado global e oferecendo uma gama cada vez mais completa de soluções.

Sei que possuem certificados que vos permitem exercer a atividade com controlo e segurança. Perante esse pensamento, como têm vindo a seguir o trilho da inovação?

Acreditamos que os portugueses, de uma forma geral, são inovadores por natureza. Não fomos nós que inventámos os barcos, mas fomos os primeiros a fazer naus e caravelas que resistissem a longas viagens marítimas. A nossa filosofia é procurar sempre uma forma para fazer melhor. Muitos dos nossos produtos parecem exteriormente iguais aos da concorrência, por imperativos dimensionais por exemplo. Mas, as diferenças de conceção, são óbvias.

A variedade de indústrias, nos mais recônditos lugares do mundo, os desafios que nos colocam, a agilidade na decisão de implementar as alterações que podem fazer a diferença para a melhoria na qualidade, na eficiência, na rentabilidade e no reconhecimento dos nossos distribuidores, esses são os pilares da inovação.

Como foi serem distinguidos como PME líder 2015?

Na realidade foi dececionante, porque vínhamos sendo PME excelência há vários anos, mantemos todos os rácios de acessibilidade para sermos PME excelência mas a quebra de cerca de 1% na faturação colocou-nos de fora. Resta-nos a consolação de que em 2016 iremos subir a faturação em mais de 20% e regressar à anterior distinção. Não sentimos que exista alguma vantagem específica pela distinção mas deixa-nos obviamente agradados.

Daqui para a frente, que estratégias e projetos têm em vista que nos possa divulgar?

A estratégia é reforçar a nossa posição em mercados mais conservadores, onde é mais difícil conquistar uma quota razoável de mercado, mas onde acreditamos que posteriormente se manterá estável e com crescimento expectável e constante por vários anos.

O último projeto não está ainda totalmente consolidado. A nossa gama Adcapure, especialmente destinada à indústria farmacêutica, química fina e cosmética, ainda carece de uns pequenos ajustes que ficarão terminados este ano.

Também este ano vamos acolher o último membro da segunda geração que, ao contrário dos dois mais velhos, não quis ser engenheiro mecânico mas eletrotécnico. Por conseguinte, vamos ter de o manter ocupado e nós ainda não fabricamos equipamentos elétricos e eletrónicos…

Terminou assim a nossa entrevista, ficando no ar a possibilidade de alargamento das valências laborais da Valsteam ADCA.

Partilhe:
Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on LinkedInShare on Google+Pin on PinterestEmail this to someone