“Uma grande paixão pela área marcou o meu percurso”

Célia Coelho - ARCHEOCÉLIS
Célia Coelho, Arqueóloga

Célia Coelho foi uma das primeiras mulheres a enveredar na Arqueologia, enquanto empresária em solo nacional e internacional, dando corpo à ArcheoCélis em 2002. Com mais de vinte anos de experiência, Célia Coelho recorda, nesta edição, o seu percurso profissional, marcado pela resiliência e paixão.

A ArcheoCélis surgiu com um objetivo definido: constituir um marco positivo para a Arqueologia em Portugal. Poderíamos começar a nossa entrevista por conhecer um pouco melhor este projeto e os serviços que disponibiliza ao mercado.

A ArcheoCélis foi criada em maio de 2002. Desde então, temos desenvolvido os nossos trabalhos, quer a nível nacional, quer a nível internacional e realizamos intervenções arqueológicas nos variados períodos históricos, desde a Pré-história à Contemporaneidade. Na sua maioria estes trabalhos inserem-se no âmbito da arqueologia de caráter preventivo ou de emergência atuando em empreendimentos públicos ou privados como o exemplo das construções rodo e ferroviárias, obras de saneamento, distribuição de águas e gás, implementação de linhas de alta tensão, reabilitação urbana, construção de barragens e empreendimentos turísticos. Todas as obras têm como objetivo principal a salvaguarda do património cultural e a posterior divulgação científica dos resultados obtidos.

A empresa apresenta um vasto leque de serviços dos quais se destacam: realização de estudos de impacte ambiental, acompanhamento arqueológico de obra, escavações de emergência nos diferentes meios (terrestre ou aquático), prospeção arqueológica, conservação e restauro de património, antropologia e investigação laboratorial de Arqueologia.

Foi uma das primeiras mulheres (se não a primeira) a enveredar na Arqueologia enquanto empresária, em solo nacional e internacional. A vontade e persistência, aliadas à paixão pela profissão, foram fundamentais para o sucesso alcançado?


Uma grande paixão pela área marcou o meu percurso. Foi essa mesma paixão que me conduziu a uma vontade enorme de a ver crescer. Num meio completamente dominado por homens, senti que o passo seguinte era o desenvolvimento do papel da mulher neste mundo. Todas as áreas crescem com a introdução de novas perspetivas, novas formas de olhar para o mesmo “objeto”. Assim, a dado momento da minha carreira, senti necessidade de agir. A exigência desse passo foi alta, o que me desafiou ainda mais a superá-lo. A vontade, a persistência, o constante esforço de manter o profissionalismo, permitiu-me desenvolver este percurso difícil, mas altamente compensador. Ter concretizado a minha paixão pessoal criando a ArcheoCélis, fazer a empresa crescer e proporcionar trabalho a outros é uma grande realização pessoal.

A ArcheoCélis conta já com um vasto portefólio de intervenções realizadas nos variados períodos históricos. Existe alguma intervenção que tenha marcado o percurso da empresa de uma forma especial?

Relembro com saudade o projeto da AENOR, responsável pela construção de várias autoestradas no norte do país. Foi uma obra que nos marcou pelo bom ambiente que se formou entre todos os intervenientes e pela prestação gratificante que demos à Arqueologia. No entanto, a obra que, quer ao nível pessoal, quer ao nível da empresa mais nos marcou foi o Baixo Sabor. Eu não seria a mulher que sou hoje se não tivesse passado por aquele empreendimento e a Archeocélis não seria a empresa que é hoje se não tivesse cumprido até ao fim o seu contrato. Esta foi uma obra foi uma provação onde lidamos com o melhor e o pior. Concluir o meu contrato e apresentar todo um trabalho com sucesso, qualidade e seriedade foi uma vitória enorme que nos consolidou e que me deu a certeza de que estávamos preparados para tudo.

 “…apesar da sua limitada capacidade de intervenção social, a Arqueologia portuguesa está viva, e atua mesmo contracorrente de muitos obstáculos que se lhe deparam…” A citação do arqueólogo Vítor Oliveira Jorge é ainda hoje um retrato da realidade da Arqueologia em Portugal?

A citação referida espelha precisamente o contexto de dificuldades permanentes que a Arqueologia enfrenta. Temos que permanentemente validar o nosso lugar, a nossa importância, o nosso papel. Em contexto de obra ainda somos muito olhados como “o mal necessário”, “os que ali estão porque a lei obriga”.  Isto depois conduz a uma inevitável desvalorização do trabalho, da qualidade do trabalho… e à precarização. Compreender a nossa história é trabalhar a nossa própria identidade, é colocar em perspetiva aquilo que somos hoje e trabalhar no que queremos ser no futuro. A Arqueologia não tem que ser vista como uma coisa voltada para o passado. Nós posicionamo-nos no presente e trabalhamos para o futuro.

Ainda existe alguma dificuldade em compreender o estudo do passado e a preservação do património como relevantes, perante os atuais desafios económicos e sociais. Outro obstáculo surge na intervenção arqueológica de emergência, em contexto de obra. O trabalho da Arqueologia surge como um aparente bloqueio à continuação do progresso e da criação de melhores condições de vida. No entanto, a Arqueologia acaba por estimular o crescimento económico pulsante do turismo, pondo a descoberto a história que tanto fascina e atrai.

Um pouco por todo o mundo, as empresas sofreram o impacto negativo da pandemia. A Arqueologia sentiu também este abalo?

Tem havido uma tentativa global de manter alguns pontos fulcrais para a economia, para que o abalo económico não traga efeitos mais nefastos, do que os já previstos e incontornáveis. Uma das áreas sob esse esforço é a construção civil. Tal não invalida a existência de impacto negativo no setor. A necessidade constante de distanciamento físico, trouxe limitações a nível da comunicação entre os diferentes serviços associados a uma obra, como o da Arqueologia.  A nível de recursos humanos, a capacidade de resposta também foi altamente afetada, com elementos das equipas a serem retirados e isolados.

É preciso não esquecer que a pandemia ainda está ativa. Não sabemos como vai evoluir, quais serão as medidas de restrição sanitárias a serem definidas e quais as consequências. Todas as áreas ainda estão sujeitas à possibilidade de novas formas de impacto, nomeadamente, a Arqueologia.


O que podemos esperar da ArcheoCélis para o futuro?

A Archeocélis tem vindo a desenvolver a sua visão sobre a necessidade de integrar diferentes áreas de investigação no seu trajeto. Nesse sentido, tem vindo a trabalhar e, até, englobar elementos de diferentes setores, formando equipas multidisciplinares orientadas para o ganho científico, cultural e económico da descoberta e interpretação das marcas deixadas pelos nossos antepassados.

A intervenção da empresa nos mais diversos tipos de sítios arqueológicos, períodos históricos, condições de preservação, exigências locais, entre outros, tem providenciado uma elevada capacidade de resposta, uma crescente rede de distribuição e um intenso ritmo de desenvolvimento que pretendemos manter no futuro. Até à chegada da pandemia, crescia uma ponte de ligação entre a Arqueologia e todas as ciências envolventes e o Turismo, trabalhando em conjunto com o intuito de gerar crescimento sociocultural e económico. Porém, novos desafios surgiram e continuarão a surgir e é necessário que a Archeocélis, como toda a Arqueologia, se mantenha viva e capaz de se adaptar e evoluir.