Foi pelas mãos de Mário do Couto que surgiu em 2012 a Asinus Atlanticus. Situado na Ilha Terceira, nos Açores, este projeto inovador conjuga a produção, embalamento, acondicionamento e exportação do leite de burra liofilizado, para os mercados da cosmética e alimentação. Fique a conhecer este projeto, que une a alimentação saudável à biodiversidade e à proteção do património biológico e cultural lusitano, e que é já um dos maiores players mundiais.

Asinus Atlanticus
Asinus Atlanticus

Situada na Ilha da Terceira, nos Açores, e criada em 2012, a Asinus Atlanticus é um projeto totalmente inovador na Região Autónoma dos Açores que conjuga a produção com o embalamento, acondicionamento e exportação do leite de burra liofilizado. Fale-nos um pouco mais deste projeto, apoiado pelo fundo de investimento público Portugal Venture e o que motivou a sua criação.

O projeto começou com a aquisição de um burro e uma pequena carroça para os nossos filhos. Mais tarde a minha esposa viu uma reportagem sobre leite de burra e achou que seria uma boa oportunidade de negócio. Duas semanas depois, sem eu saber, já tinha comprado, em conjunto com a minha irmã, 2 burras. Desde então, nunca mais parou. O negócio teve, no entanto, um momento-chave: sem terreno próprio e dependentes de aluguer de propriedades de outros, decidimos fazer uma pausa, no fundo para decidir se avançávamos ou não. Típico de qualquer negócio. Nesse mesmo dia apareceu um senhor, em nossa casa, com uma burra para nos vender, pedia 500 euros. Decidimos não comprar. Nessa semana e como sempre faço, joguei no Totoloto, saíram-me 500 euros. Achei que era o sinal que faltava e comprei o animal. O negócio continuou a crescer. Mais tarde e por ser um negócio inovador sofreu um investimento por parte do fundo de capital de risco dos Açores, agora chamado de Azores Ventures, através da Portugal Ventures. O que aprendemos com a PV veio a revelar-se como a alavanca que necessitávamos para sermos, atualmente, um dos cinco maiores players mundiais do leite de burra, e com uma qualidade muito acima da média.

Um projeto inovador que, inicialmente, trouxe consigo inúmeros desafios. Quais as principais dificuldades que a Asinus Atlanticus encontrou na implementação deste projeto?

A falta de know-how. Eu sou professor e a minha esposa médica. Não tínhamos qualquer conhecimento na área, não tínhamos terra nem animais, começamos tudo do zero. Tudo foi feito tendo por base muito estudo e com recurso à tentativa e erro. A melhor forma de aprender, mas também a mais cara. Foi um processo complexo, difícil e dispendioso, mas que nos permitiu consolidar muito conhecimento e ter aquele que é considerado como “o melhor leite de burra do mundo”. Atualmente, damos ajuda a quintas por todo o mundo, sendo que a última foi no Chile, com quem mantemos uma relação muito próxima.

Todos sabemos que os Açores têm uma grande vivência na exploração do leite de vaca. No entanto, explorar leite de burra não é como explorar leite de vaca. Quais as principais diferenças na exploração e comercialização do leite de burra?

Os burros são animais muito sensíveis, ao contrário do que possa parecer, pelo que são necessários muitos cuidados e atenção. O maneio e a relação com as crias são totalmente diferentes. No que respeita à comercialização, as diferenças são enormes. Desde logo a começar pela tecnologia utilizada, a liofilização, que nos permite ter um produto seco que, após reidratado, é 100% idêntico ao que retiramos do animal. É um produto destinado essencialmente ao mercado da cosmética e da alimentação em populações especiais, nomeadamente crianças com doenças autoimunes nos Estados Unidos da América. É um produto caro e diferenciado, com muito valor acrescentado.

A exportação já é uma realidade para a Asinus Atlanticus que tem vindo a adquirir burros de outras raças com vista a aumentar a produção. Atualmente, quais os principais mercados para onde a empresa exporta a sua produção?

A Asinus exporta essencialmente para a indústria cosmética francesa e para o setor alimentar dos Estados Unidos da América. No segundo semestre deste ano é nossa intenção começar a exportar para a Coreia do Sul. Para além destes mercados, exportamos pontualmente para o Reino Unido e acabamos de fechar um contrato de representação para os países do Norte da Europa.

A Asinus Atlanticus produz, transforma e comercializa leite de burra, que foi já reconhecido pela comunidade científica como o mais idêntico ao leite materno humano, sendo considerado um superalimento natural com propriedades nutricionais e com benefícios diretos para a saúde. Quais os principais propriedades e benefícios do leite de burra?

Efetivamente o leite de burra é o mais semelhante que existe, na natureza, ao leite materno. Isso, torna-o num alimento hipoalergénico, usado principalmente para crianças com alergia à proteína do leite de vaca, cabra ou camela. Esta característica tem despertado na comunidade científica nacional e internacional um crescente interesse, o que nos levou a lançar, em parceria com a New Medical School de Lisboa, com a Maternidade Alfredo da Costa, a Maternidade da Estefânia, o Instituto Ricardo Jorge, o Instituto Politécnico de Coimbra e a Universidade dos Açores o maior estudo mundial de utilização de leite de burra como suplemento alimentar de recém-nascidos. Este é um estudo que, de momento, aguarda aprovação do Governo dos Açores. No que diz respeito à cosmética, as propriedades do leite de burra são ancestralmente conhecidas. Todos nos lembramos da lenda de Cleópatra, que tinha no seu banho diário em leite de burra o segredo da sua beleza eterna. É um leite com um forte poder esfoliante e de estimulação da produção de colagénio da pele. Paralelamente, estamos, em conjunto com a Universidade dos Açores, a fazer vários estudos nas áreas de alimentação e cosmética, cujos resultados estarão disponíveis em breve.

Sempre tendo como objetivo unir a alimentação saudável à biodiversidade e à proteção do património biológico e cultural lusitano, o que podemos esperar da Asinus Atlanticus para o futuro?

Desde logo, preservar a raça autóctone dos Açores, uma das duas existentes a nível nacional: o burro anão da Graciosa. Depois, manter a inovação e a investigação como as matrizes da empresa, apresentando-se sempre como líder mundial nestas áreas.