A fusão entre a paixão pela vida e a resiliência

Margarida Martins - APBP Portugal
Margarida Martins – APBP Portugal

Há mais de 60 anos que a Associação Internacional de Artistas Pintores Com a Boca e o Pé leva a arte de centenas de artistas de todo o mundo, a milhares de pessoas. A Portugal em Destaque entrevistou Margarida Martins, administradora da APBP Portugal, que deu a conhecer esta associação que permite aos seus membros, através da pintura com a boca e os pés, viver exclusivamente do seu esforço e trabalho.

A Associação Internacional de Artistas Pintores com a Boca e o Pé conta com mais de 60 anos de existência. Presente em Portugal há 27 anos, através da APBP (Artistas Pintores com a Boca e o Pé), esta associação surgiu com um objetivo bem definido. Fale-nos um pouco deste projeto e do trabalho que desenvolve.

O primeiro objetivo desta associação foi o de ajudar a integrar na sociedade, pessoas com um tipo específico de deficiência. Terem nascido sem braços ou mãos ou que tendo nascido com eles, não os possam usar. A associação motiva estas pessoas a descobrir um novo interesse nas suas vidas, através da pintura com a boca ou o pé, dando a conhecer as obras destes artistas que, através da sua arte, se integram na sociedade e fazem dela o seu meio de subsistência e a sua realização pessoal. Em todos os continentes são vendidos postais e calendários, entre outros artigos, que reproduzem os originais destes artistas chegando aos lares de milhões de pessoas que admiram e se solidarizam com esta causa. A sua venda reverte para a associação internacional que reparte os lucros dos diversos países com os artistas em forma de bolsas e pensões, que se traduzem no salário mensal destas pessoas.

Uma das premissas da Associação Internacional de Artistas Pintores com a Boca e o Pé é o de permitir aos seus membros viver exclusivamente do seu esforço e do seu trabalho. Como e quem pode fazer parte desta associação?

Pode fazer parte da associação qualquer pessoa que não possa fazer uso dos membros superiores, seja por doença, acidente, por ter nascido sem braços ou mãos ou com qualquer outro tipo de problema nos mesmos que a impossibilite de segurar o pincel para pintar. A premissa é que pinte com a boca e/ou o pé por impossibilidade total do uso das mãos. Para fazer parte da associação basta contactar a APBP em Portugal, que faz a ligação com a Associação Internacional de Artistas que pintam com a boca e o pé. Depois tem de apresentar um atestado médico, e passar por uma candidatura que é um proforma e é sempre aceite independentemente do proponente já ter conhecimentos de pintura. O importante é começar e ter vontade de desenvolver essa capacidade.

Explane o impacto que a pandemia da Covid-19 teve na divulgação e exposição do trabalho dos Artistas Pintores com a Boca e o Pé? Quais foram as principais dificuldades?

Como a nossa divulgação e contacto com os clientes é toda ela feita online e através dos CTT, felizmente não houve um impacto negativo excessivo neste aspeto. Onde nos afetou mais foi no contacto direto dos artistas com as escolas, onde fazemos todos os anos demonstrações de pintura ao vivo e sensibilizamos os estudantes de todas as idades para o problema da deficiência e consequente inclusão. Claro que este ano foi impossível este tipo de interação, assim como efetuar qualquer exposição de originais. Estas exposições são feitas, habitualmente, a partir de convites dos mais variados quadrantes, convites que pela pandemia não existiram este ano.

Onde podemos encontrar as obras dos vossos artistas e de que forma os podemos apoiar?

Neste momento, e até que este período termine, as obras só podem ser vistas em papel, através dos nossos artigos, sejam eles os postais e calendários que habitualmente enviamos para casa, ou todos os outros como puzzles, bloco de notas, livros infantis… Atualmente, é possível encomendar todos os artigos através de e-mail, telefone, ou através do site.

Atualmente a associação conta já com mais de 800 membros, espalhados pelos cinco continentes, sendo que, todos eles partilham algo em comum: a paixão pela pintura e a resiliência. Que mensagem gostaria de deixar a todos aqueles que hoje se deparam com barreiras físicas, mas que desejam transformar a sua vida?

A sua pergunta focou duas palavras fundamentais: paixão e resiliência. A paixão pela vida, antes da paixão por qualquer outra coisa, é fundamental, mesmo nas condições mais difíceis, e é o que todos os artistas que eu conheço pessoalmente me ensinaram de mais valioso. Que tudo é ultrapassável, se tivermos resiliência, e aqui aparece a segunda palavra essencial. A resiliência faz com que todos os dias se alcance mais uma vitória e se acumule mais uma conquista. Claro que a solidariedade e o civismo dos que nos rodeiam também é fundamental, mas o primeiro passo tem de ser a força de vontade do próprio. Essa é a mensagem que estes artistas me deixam todos os dias e que eu desejo passar aos vossos leitores.