Fernando Tinta Ferreira, presidente da Câmara Municipal de Caldas da Rainha
Fernando Tinta Ferreira, presidente da Câmara Municipal de Caldas da Rainha

Situada na orla marítima da Estremadura, Caldas da Rainha deve o seu nome à nascente termal muito apreciada pela Rainha D. Leonor. Hospitaleira, saudável, tradicional e artística, esta cidade tem como ex-libris, entre outros, as termas e o hospital termal. De grande incentivo turístico e cultural é também a sua forte indústria cerâmica, a sua gastronomia, e paisagens que todos os anos levam milhares de turistas a percorrer as principais artérias da cidade. Fernando Tinta Ferreira, presidente da Câmara Municipal de Caldas da Rainha, não tem dúvidas de que o concelho tem vindo a tornar-se um popular destino turístico, cada vez mais apreciado pela sua centralidade e qualidade ambiental, urbana e paisagística excecionais.

Assume os destinos da Câmara Municipal de Caldas da Rainha desde 2013. Prestes a terminar o segundo mandato na presidência do município, quais foram as áreas alvo de especial atenção por parte do executivo camarário, ao longo deste quadriénio?

Ao longo destes mandatos temos procurado desenvolver as Caldas da Rainha enquanto um território, cujas vantagens de uma convivência equilibrada entre o campo e a cidade, a serra e o mar, o lazer e o trabalho, entre diversos sectores económicos e indústrias produtivas, coexistem num ecossistema delicado em que tem sido necessário trabalhar de forma inovadora, sustentável e multidisciplinar.

Essa diversidade é a de um território cuja morfologia de águas e de barro, reflete-se numa indústria cerâmica qualificada, que foi possível reenquadrar na economia recentemente, fazendo jus a um conhecimento local com séculos de existência. Assim, temos apoiado a indústria cerâmica para que se desenvolva em ligação com a arte, não só de trabalhar o barro, mas também da sua diferenciação com mais de 50 ceramistas de autor identificados no território, cuja continuidade está disseminada entre a indústria e o Craft, valorizada e assinalada pela UNESCO enquanto Cidade Criativa de Artesanato e Artes Populares em 2019.

Ao nível do turismo balnear, único na sua oferta, com uma costa atlântica e a sua lagoa, galardoadas do ponto de vista ambiental há décadas, deparamo-nos com um ecossistema ambiental delicado e fundamental a preservar, e que temos lutado para que seja mantido e protegido com o início das tão aguardadas dragagens que permitirão manter a ligação da lagoa ao mar.

Ao nível do património termal, inigualável no mundo, realizámos as obras essenciais para recuperar o património e os equipamentos e apoiámos a criação de investigação e formação na disciplina, de forma a favorecer a criação de postos de trabalho qualificados e diferenciados com a criação de um novo curso na EHTO e outro na ESAD.

Ao nível do edificado, estamos a intervir no hospital de forma a reabrir em julho com novas infraestruturas para banhos, massagens, duches e tratamentos de bem-estar e lazer que posicionem o hospital na recuperação do corpo e do espírito. Apoiámos a concessão do edificado dos Pavilhões do Parque, cuja recuperação é fundamental, com a oportunidade do programa REVIVE iniciado em 2016. Também de salientar uma economia pujante baseada numa indústria agrícola certificada e sustentável, com qualidade valorizada a nível internacional. A indústria agrícola continua a coabitar com uma centralidade urbana, que no oeste de Portugal, é a cidade de comércio e serviços cuja identidade se afirma pela sua qualidade e competitividade, de uma urbe atrativa, equilibrada, segura e familiar. Um símbolo icónico desta coabitação, é a Praça da Fruta, situada na Praça da República em funcionamento ininterrupto desde 1883 e que é aos dias de hoje um cartaz turístico de práticas de consumo conscientes, circular e sustentável e que temos também apoiado e criado condições para a sua manutenção.

Ao nível da educação, o trabalho efetuado nos equipamentos desportivos e educacionais, acrescenta qualidade às várias escolas, seja pela oferta de infraestruturas e de temáticas pedagógicas e desportivas, seja pela contribuição para uma cidade dinâmica, cuja prática educacional e desportiva, é uma tradição local que se cruza disciplinarmente com todas as vertentes do nosso trabalho ao nível do turismo, cultura e economia.

Ao nível da inovação e competitividade, a proximidade na relação com as instituições científicas como a Escola Superior de Artes e Design do Politécnico de Leiria, cuja ligação se fortaleceu ao nível institucional e da relação com os agentes pedagógicos e da comunidade. Por último, mas igualmente importante, uma ambiciosa obra de regeneração urbana que veio renovar em grande parte as vias de circulação, uma grande percentagem do saneamento e infraestruturas urbanas, com os níveis de exigência urbana estrutural contemporânea, com preocupações de mobilidade suave, inteligência urbana, saneamento e regeneração de resíduos sólidos urbanos.

A cidade de Caldas da Rainha destaca-se pela sua luz, pela riqueza do seu património arquitetónico e cultural e pela beleza das suas praias. A gastronomia e doçaria típica também são alguns dos seus chamarizes e motivo de atração para milhares de turistas e visitantes, que todos os anos preenchem as principais artérias do concelho. O que a “Terra de água e de artes” tem a oferecer a quem a visite?

Nos últimos quatro anos e meio, a oferta de alojamento turístico no Município das Caldas da Rainha foi a que mais cresceu percentualmente, em comparação com os seus municípios vizinhos, tendo-se verificado um crescimento significativo de dormidas, não só ao nível da qualidade, como também no número de camas, acompanhando o advento do Alojamento Local nacional.  Também de salientar a abertura de uma unidade hoteleira com 82 quartos e uma Boutique House temática da arte cerâmica local. Está previsto um hotel de 5 estrelas com 107 quartos com piscina exterior e restaurante. Na oferta natural e paisagística, as praias da Lagoa de Óbidos, Foz do Arelho e Salir do Porto. Além das praias, o Paúl da Tornada e a relação entre a cidade e o campo numa convivência cujo equilíbrio favorece estadias plenas de tranquilidade e descontração.

Ao nível da gastronomia e fruto da nossa tradição rural, Caldas da Rainha tem vindo a trabalhar os seus produtos endógenos e criado verdadeiras referências da hotelaria no panorama gastronómico local, através da Escola de Hotelaria do Oeste. Aqui podemos degustar desde os produtos do campo como a fruta (IGP) que se revela na doçaria conventual das trouxas de ovos, cavacas e beijinhos das Caldas, o Pão de Ló e o Pão de Ló, as Leonores, a Torta da Arrelia e o mais contemporâneo Pastel Bordallo. Além destes, também os produtos da terra e do mar como a Codorniz do Landal, as enguias da Lagoa de Óbidos nas Caldeiradas e fritas ao alho e limão.  Por último a criação recente da oferta gastronómica da Tronchuda (Couve Portuguesa), que é servida de diversas formas ao gosto dos chefs dos diversos restaurantes locais cuja referência aos dias de hoje é já regional e até nacional.

Caldas da Rainha é hoje uma cidade ativa e dinâmica, com movimento, oferta cultural e qualidade de vida. Um exemplo a seguir e um dos motivos pelos quais Portugal foi eleito o melhor destino para visitar em 2021. Hoje, mais do que nunca, o turismo constitui para o município de Caldas da Rainha um forte motor de desenvolvimento local? Quais as principais iniciativas desenvolvidas com vista à promoção turística do território?

Caldas da Rainha a par de todo o país tem vindo a crescer no panorama turístico e com seriedade tem-se afirmando na apresentação de produtos que constituem uma marca de renome internacional. É sabido que a Região Oeste é uma das “mecas” do turismo residencial, e nesse enquadramento Caldas da Rainha afirma-se pela sua centralidade e qualidade ambiental, urbana e paisagística excecionais. A promoção que tem vindo a ser efetuada é baseada na gestão de recursos endógenos, de uma atratividade sustentada numa promoção que é alavancada com base na experiência do destino e muito editorial. Assim aposta-se num crescimento sustentado e consistente, fruto das valências mais significativas das políticas públicas, associadas sempre à sustentabilidade no seu todo, regeneração e vida consciente, podendo mesmo dizer “slow-life”.

Caldas da Rainha e arte andam pela rua de mãos dadas. Uma simbiose que se sente em cada recanto e define a cidade. Falar de Caldas da Rainha é falar da sua cerâmica, dos seus pintores e artistas. Prova disso, é a distinção atribuída à cidade, em 2019, como “Cidade Criativa da UNESCO do Artesanato e Artes Populares”. Qual a importância desta distinção para o município e qual o seu contributo para a preservação do património artístico do concelho?

A nomeação pela UNESCO de cidade criativa de Artesanato e Artes Populares é uma responsabilidade e um benefício por ordem de importância. A responsabilidade em nós depositada, é a representação de uma distinção cultural de importância global, que surge de forma natural no panorama cultural local, tendo sido afirmada em parceria com a Cátedra da UNESCO da Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha. O benefício chega quando a comunidade interpreta esta responsabilidade e assume de forma consciente o seu papel no panorama global. Assim foi iniciativa institucional partilhada entre o município e a Cátedra da UNESCO da ESAD.CR do Politécnico de Leiria definir esta estratégia, mas é um esforço partilhado garantir a sua perpetuação. Assim, os mais de 50 ceramistas identificados na componente de produção manual, que usam o design, a investigação e o conhecimento para autossustentarem as suas dezenas de postos de trabalho, representam também um talento e um património imaterial baseado no conhecimento e numa forma de estar, que valoriza a sustentabilidade social, ambiental e económica, que é representativo de um modo de vida específico e que aqui, dadas as características urbanas locais seculares, pode acontecer.

A comunidade artística foi uma das mais afetadas pelo impacto da pandemia da Covid-19. Foi a pensar nisso que a Câmara Municipal lançou um programa de aquisições para os ceramistas locais, no âmbito das atividades do “Caldas da Rainha Cidade Cerâmica”. Fale-nos um pouco mais desta iniciativa e das medidas adotadas com vista à sobrevivência do artesanato cerâmico e da produção autoral instalada no concelho.

O efeito desta pandemia no setor do Craft, foi criteriosamente avaliado entre a comunidade dos “fazedores”, sejam eles ceramistas ou designers, e foi vontade da autarquia apoiar a criação de peças e a sua venda, através de um espaço físico, anteriormente preparado no decorrer das atividades da cidade criativa. É fundamental que esta comunidade encontre formas continuadas de sustentar a sua produção artística, principalmente num momento de transição para a digitalização, na qual o município irá participar e apoiar com a divulgação online das atividades da cidade criativa e dos seus participantes, através do site institucional da cidade criativa da UNESCO em Craft & Folk Arts e da promoção do destino Caldas da Rainha ao nível global.

Caldas da Rainha é uma cidade que se orgulha de ser um refúgio artístico, mas também terapêutico. As Caldas da Rainha são hoje uma das mais importantes estâncias termais portuguesas que, ao longo do tempo, foram sendo procuradas pela maioria dos reis de Portugal para aí fazerem a sua cura anual. Atualmente, qual a importância que o turismo termal assume na divulgação e promoção deste território?

Faz parte da história desta comunidade e da responsabilidade dos caldenses, a tradição em acolher e cuidar, fruto da herança patrimonial do Hospital Termal cuja data da fundação em 1484 pela Rainha Dona Leonor, o distingue como o mais antigo do mundo. Tal como predestinado na construção do edifício em que existe um eixo de alinhamento entre o corpo, o espírito e a natureza ou o nosso habitat, o Hospital Termal é este eixo nevrálgico que além de ser a fundação da cidade, foi o seu motor artístico e económico no passado e é potencialmente o nosso elemento mais sustentável, que garante a qualidade de vida urbana e prospetiva um crescimento alinhado com os valores da contemporaneidade.

Desde tratar maleitas músculo-esqueléticas, problemas de pele ou condições respiratórias, as águas das termas portuguesas são procuradas há séculos por milhares de pessoas de todo o mundo. A sua história remonta ao tempo dos romanos, quando a evidência empírica afamava estas águas. Mas agora é a ciência que o atesta e cada vez mais públicos estão a descobrir as vantagens da sua utilização. Quais as principais propriedades terapêuticas e curativas das águas termais?

A cura termal é um dos tratamentos terapêuticos mais antigos, com provas da sua eficácia através do uso das propriedades naturais da água termal no alívio da dor e no tratamento das afecções crónicas. Os tratamentos termais produzem uma significativa diminuição da dor, possibilitam uma maior mobilidade, uma diminuição do consumo de medicamentos e uma maior autonomia e bem-estar geral.

A importância das atividades termais em Caldas da Rainha encontra o seu local de referência no Hospital Termal de Caldas da Rainha, classificado como o mais antigo Hospital Termal do mundo. Recentemente, alvo de intervenções de requalificação, o Hospital Termal de Caldas da Rainha voltou a abrir portas ao público em 2020, após terem sido suspensos os tratamentos termais em 2012. Atualmente, quais as valências em funcionamento já disponíveis?

Atualmente, temos já disponíveis os tratamentos ORL para as doenças das vias respiratórias tais como asma, sinusite, rinite alérgica, bronquite crónica ou faringite crónica. Estes tratamentos permitem que a água termal exerça os seus efeitos nas vias respiratórias ajudando na eliminação das secreções, promovendo a regeneração celular e melhorando desta forma a respiração. No próximo verão teremos também disponíveis tratamentos do foro músculo-esquelético para o alívio de artrites, dores reumáticas, osteoartroses, entre outras. Nestes casos a cura termal ajuda a reduzir a inflamação, promove o relaxamento muscular e aumenta a circulação sanguínea.

Seja pela arte, pela cultura, gastronomia, águas termais ou festividades, o importante é visitar este município. Que convite gostaria de deixar aos nossos leitores? Vivemos uma época em que a vida em comunidade, a sustentabilidade e a solidariedade são fatores de sobrevivência nesta transição para o início de um milénio que irá de forma muito rápida marcar as gerações mais novas pela rapidez dos processos e pela velocidade de transmissão do conhecimento. É nossa vontade contribuir para que a nossa cidade possa acompanhar os desafios tecnológicos, e de igual forma contribuir para um equilíbrio no modo de vida que permita desacelerar e contribuir para a afirmação de uma sociedade regenerativa, consciente e solidária no apoio ao próximo, na afetividade e na relação com o meio ambiente, tal como o legado que a Rainha Dona Leonor nos deixou de herança há cinco séculos e faz de nós caldenses uma comunidade tolerante, cuidadora e acolhedora de todos aqueles que nos visitam.