Alexandra Gonçalves, Diretora-Geral da Mendes Gonçalves - Portugal em Destaque

Assume-se uma pessoa curiosa por natureza, uma qualidade que sempre esteve presente em todos os projetos em que se envolveu. Num papel de liderança, enquanto Diretora-Geral da Mendes Gonçalves, Alexandra Gonçalves, acredita numa igualdade de género em cargos de chefia acompanhada por uma sociedade mais evoluída.

De onde vem a veia empreendedora e a vontade de querer saber e fazer sempre mais?

Sempre fui uma pessoa curiosa, sempre quis saber e perceber o mundo que me rodeava. Essa curiosidade sempre esteve intrínseca na minha vida e me catapultou a sair, a perguntar e a tentar perceber o mundo. Para além disso, gosto de aprender coisas novas, logo é muito fácil envolver-me em projetos diferentes. Essa característica trouxe-me novos desafios, ao longo da minha vida, que foram surgindo e eu sempre aproveitei. Independentemente da idade e da fase da minha vida, sempre procurei mais conhecimento, seja em formações ou com pessoas que me rodeiam. Não sei em que ponto surgiu esta veia empreendedora, mas acredito que é o resultado de tudo isto e de todas as experiências que fui acumulando.

Administra a Casa Mendes Gonçalves há mais de 4 anos, mas faz parte da empresa há mais de 16. Como avalia o seu percurso na empresa e o seu crescimento?

Devo muito do que sou à Casa Mendes Gonçalves. Iniciei em funções na área da qualidade alimentar, que me permitiu ter um grande contacto com a parte industrial e produção. Depois a minha curiosidade e o facto de tentar dar um input a novos projetos, fui convidada a participar nas primeiras feiras internacionais. Gostei muito e fui aprendendo com os desafios que foram surgindo. As oportunidades foram aparecendo e eu não dizia que não, acreditava sempre que era capaz. Entretanto também estive na vertente comercial, nas vendas nacionais e internacionais, na criação de projetos tailor-made, uma das grandes forças da Casa Mendes Gonçalves, porque fazemos projetos à medida e chave na mão para vários clientes. Até que fui convidada para a direção geral, resultado de todo o conhecimento adquirido até então.

O meu percurso de 16 anos e tudo o que sou está muito interligado com o crescimento da Mendes Gonçalves, pelas oportunidades que me foram surgindo e que fui agarrando.

Em que medida as mulheres se distinguem em cargos de liderança? Quais são as mais-valias para o mundo empresarial?

Acredito que existem ótimos líderes, tanto homens como mulheres. Existem algumas características que só nós mulheres temos, mas existem homens muito bons líderes. O que podemos aportar de diferente? Somos mais emocionais que nos permite ter alguma diplomacia diferente para tratar de alguns temas e assuntos. E, numa era em que é necessário ter alguma sensibilidade para lidar com os desafios atuais, e muitos se devem à felicidade no trabalho, motivação nas equipas, estar atento ao indivíduo e não ao número, penso que, por vezes, as mulheres poderão ter esse lado mais facilitado.

Enquanto mulher ativa no mundo dos negócios, quais são os principais desafios que já enfrentou e quais são os atuais?

Ao longo do meu percurso, já tive vários desafios. Sempre que agarrava um novo desafio, nunca pensava nos obstáculos que ia ter e como os ia superar. As questões apareciam, mas como eu tenho um espírito de problem solver, para mim era interessante e desafiante resolver os problemas. Quando fui indicada para Diretora-Geral, foi um desafio gigante, dada a responsabilidade de traçar um caminho para uma organização desta dimensão.

Os desafios atuais são aqueles que a maioria das empresas estão a viver. Estamos num período muito desafiante e turbulento. Quando estudamos existem livros e textos que nos ensinam a lidar com vários problemas, mas muito poucos nos dizem como lidar com estes problemas ao mesmo tempo a acontecerem nas nossas empresas. Esse é o desafio que todos os gestores terão na mão, assim como a escassez de matérias-primas, para a indústria alimentar, porque todos os dias recebemos notícias de que provavelmente alguma matéria-prima vai falhar. Acrescendo o aumento de preços, que a escalar de uma forma desmedida me preocupa bastante. Por isso, toda a conjuntura macroeconómica é, neste momento, um grande desafio, mas acredito que quem tiver a capacidade de manter as suas empresas vivas e minimamente saudáveis, será uma grande aprendizagem para todos nós enquanto gestores.

"Família" Mendes Gonçalves - Portugal em Destaque
“Família” Mendes Gonçalves

A igualdade de género e salarial no mundo empresarial, ao nível da liderança, está mais perto de ser uma realidade?

Infelizmente, está num caminho pouco acelerado. Vai acontecendo, todos nós temos a responsabilidade de o fazer. Eu sou defensora da meritocracia, porque acho que independentemente do género, um bom profissional tem de ser remunerado pelo trabalho que entrega. Não é por sermos mulheres que vamos pedir quotas, mas se entregamos a mesma quantidade e qualidade de trabalho, tem de ser remunerado da mesma forma. Mas também acredito que tem de deixar de ser uma questão de mulheres para mulheres, é uma questão de sociedade e que a própria empresa tem de evoluir no sentido de entender que empresas equilibradas a nível de género, resultam em equipas multidisciplinares muito mais ricas. A sociedade tem de perceber que poderá ser uma vantagem competitiva haver diversidade nas organizações, porque vão ter pontos de vista diferentes. É uma questão de escolha dos gestores atuais, tomar essa decisão de serem mais sofisticados e inteligentes na gestão dos recursos que têm a aportar nas suas empresas. Empresas equilibradas a nível de género, vão ser forçosamente melhores.

A Casa Mendes Gonçalves é uma referência empresarial nacional, inovadora e criativa. Como é gerir esta família feliz que trabalha para passar, através dos seus produtos, essa felicidade a outras famílias?

Somos uma empresa com alma e como uma família planeamos, rimos, choramos, mas no final estamos todos a trabalhar num projeto comum e todos com um propósito. A nossa missão é trazer alegria aos pratos de todos os portugueses e outras geografias, que nos confiam as suas marcas. Acreditamos que se conseguimos por um sorriso na cara de alguém quando está a provar uma refeição com os nossos produtos, a nossa missão foi cumprida, trazendo inovação, irreverência, e todo este nosso lado de inquietude que pauta a Mendes Gonçalves.

Além disso, temos apostado em tratar as nossas pessoas não como números, mas como pessoas individuais e estar cá quando as pessoas precisam de nós e têm desafios nas suas vidas.

Qual a mensagem que pretende deixar aos nossos leitores/as a propósito do papel da mulher na atualidade?

É uma questão difícil porque as mulheres sozinhas não conseguem, tem de ser a sociedade a evoluir e a forma como se aborda esta questão é que vai definir o nível de maturidade e sofisticação da sociedade em que estamos. Tanto homens como mulheres conseguem entregar trabalhos de qualidade, ser líderes inspiradores e fazem coisas fantásticas. No final somos todos seres humanos, tudo é fruto do talento e do trabalho.

Alexandra Gonçalves, Diretora-Geral da Mendes Gonçalves
Casa Mendes Gonçalves