Tecnologia e investigação ao serviço da saúde

Maria Guarino - coordenadora do ciTechCare – Centro de Inovação em Tecnologias e Cuidados de Saúde, do Politécnico de Leiria.
Dra. Maria Pedro Guarino – Coordenadora do ciTechCare
Centro de Inovação em Tecnologias e Cuidados de Saúde, do Politécnico de Leiria.

Doutorada em Fisiologia, licenciada em Bioquímica, pós-graduada em Farmacologia e Terapêutica e docente na Escola Superior de Saúde, do Politécnico de Leiria, a Prof. Doutora Maria Pedro Guarino é também, desde maio de 2020, coordenadora do ciTechCare – Centro de Inovação em Tecnologias e Cuidados de Saúde, do Politécnico de Leiria. Foi com ela que estivemos à conversa para conhecer esta unidade de investigação e o trabalho que desenvolve em prol da saúde.

Com um currículo invejável, é hoje uma referência na área da investigação. Podemos começar a nossa entrevista, por conhecer um pouco melhor o percurso profissional que tem vindo a traçar.

Fiz a licenciatura em Bioquímica, sempre numa vertente, o mais possível, ligada à Saúde. Quando terminei a licenciatura, iniciei o doutoramento, em Fisiologia, na Faculdade de Ciência Médicas da Universidade Nova Lisboa já muito ligada à área da Saúde, nomeadamente, à procura de mecanismos que justificassem o aparecimento da diabetes na pessoa adulta, associada aos maus hábitos de vida e estilos de vida mais sedentários. Depois de terminar o doutoramento, fiz uma pós-graduação em Farmacologia. Passei um ano no Canadá a fazer investigação e a pós-graduação na área da Farmacologia Médica, Farmacologia Clínica e Farmacologia Básica. Mais tarde, regressei à Faculdade de Ciências Médicas, onde lecionei ao Mestrado Integrado de Medicina, e onde fui docente no Departamento de Fisiopatologia. A minha vida pessoal acabou por me trazer de volta a Leiria. Foi então que decidi enviar o currículo para a Escola de Saúde do Politécnico de Leiria e desde 2012 integro o Politécnico de Leiria. Acho que foi a aposta certa. Identifico-me muito com a estratégia e visão da atual presidência do Politécnico de Leiria. Há uma grande vontade de criar um paradigma diferente no Ensino Superior Politécnico que, sem perder esta sua função de proximidade com a sociedade, quer criar conhecimento novo e aplica-lo.

Em maio de 2020, foi eleita coordenadora do ciTechCare. O que é o ciTechCare e qual o trabalho que desenvolve?

Quando abracei este projeto, não havia na Escola de Saúde uma unidade de investigação financiada e reconhecida pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. No entanto, com a abertura do concurso para avaliação de novas unidades de investigação, em 2017, achámos que seria a altura ideal para propor um projeto. Foi então que surgiu o ciTechCare, que é uma unidade de investigação na área da Saúde, conjugada com a da Tecnologia. Criámos um projeto novo onde conseguimos envolver o Centro Hospitalar de Leiria e a ARS Centro, médicos, enfermeiros e outros profissionais de saúde que são membros da nossa unidade e que estão no terreno todos os dias. Neste novo paradigma da unidade de investigação, temos como objetivo investigar, descobrir, testar, mas também estar ao serviço da sociedade.

Temos tido muitas solicitações de empresas, de instituições de saúde e até de instituições de cariz social, que nos contactam com a apresentação de problemas do seu dia a dia e que nos pedem ajuda para tentar desenvolver e encontrar soluções. Estou muito satisfeita, porque acho que estamos realmente a traçar o caminho certo, a estabelecer sinergias e a desenvolver serviços e produtos úteis para a nossa comunidade. Algo também fundamental para nós é a formação de jovens, a aprendizagem que querem fazer connosco. Acreditamos na formação de novos profissionais de saúde, que tenham esta componente académica e de investigação, sempre com ligação  ao terreno. Esta capacidade que temos de atrair talento jovem, de ser apelativos, é para nós motivo de muito orgulho.

Estão já em desenvolvimento diferentes projetos em áreas tão diversas como Engenharia Clínica, Microbiologia, ou até Promoção da Saúde e Atividade Física. Quais os principais projetos em desenvolvimento?

Temos um projeto, financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, de promoção da atividade física para a população com Doença Pulmonar Obstrutiva Crónica. Este projeto, intitulado OnTRACK, tenta promover a atividade física em pessoas com patologia respiratória, fundamental no processo de reabilitação e manutenção da doença. Este projeto é coordenado pela professora Joana Cruz e junta a tecnologia com a manutenção da saúde. Temos também, quer na área da Reabilitação Respiratória, quer na da Reabilitação Cardíaca, o projeto 2ARTs, coordenado pelo Professor Doutor Rui Fonseca Pinto, que conta com cardiologistas do Centro Hospitalar de Leiria e tem financiamento previsto para o desenvolvimento de um novo modelo de reabilitação cardíaca, desenvolvido no ciTechCare.

Temos também vários projetos na área da Nutrição e da Inovação Alimentar, relacionados com a doença celíaca. Estes projetos são coordenados pela investigadora Sónia Gonçalves Pereira, que é a única investigadora de carreira do Politécnico de Leiria. Para além disso, temos no âmbito da Promoção da Saúde o projeto Veggies4myHeart, de promoção de hortícolas em crianças em idade pré-escolar, coordenado pela Prof. Cátia Ponte. O projeto consistiu no desenvolvimento de um jogo digital e no teste, no terreno, da eficácia deste jogo e das ferramentas digitais em comparação com outras mais tradicionais.

Um dos principais projetos em vista do ciTechCare, pretende envolver investigação, saúde e a indústria. Fale-nos um pouco mais desta aposta.

Pretendemos dar início a um conjunto de iniciativas dinamizadas pela unidade que procuram promover um encontro mais próximo entre a indústria e as instituições de saúde. A zona de Leiria é muito rica em termos empresariais e há uma série de parcerias e colaborações que se podem estabelecer para a área da Saúde.

Tentamos sensibilizar estes empresários a procurar outras linhas de investimento. Temos já aqui um ecossistema favorável: temos investigadores, académicos, profissionais de saúde e a indústria. Começa a existir na região know-how suficiente para dinamizar esta área. Acho que o ciTechCare poderá ter aqui um papel importante, nem que seja o de juntar estas pessoas e colocá-las a conversar.

O ano de 2020 ficará marcado pelos desafios e superações. O novo coronavírus veio reforçar a importância de unidades de investigação, como o ciTechCare, na área da Saúde, conjugada com a tecnologia?

Com a COVID-19 vimos uma necessidade enorme de testar e o nosso Sistema Nacional de Saúde não estava preparado para dar resposta numa escala tão elevada. Portanto, as instituições do sistema científico e tecnológico tradicional, as universidades, e muitas outras entidades, foram chamadas a dar apoio a esta situação e a utilizar os seus laboratórios para testar e para desenvolver novas metodologias de diagnóstico para a COVID-19.

Uma das coisas boas que esta situação trouxe, foi que a sociedade portuguesa começou a olhar para os nossos cientistas e para os nossos investigadores como pessoas que podem, efetivamente, ter uma utilidade muito grande e com recursos muito valiosos para apoiar o país nestas situações. Acho que o ciTechCare beneficiou desta atenção e do carinho que as pessoas desenvolveram pela ciência. Portanto, estamos agora a ter mais apoio e atenção da comunidade, quando lançamos as nossas propostas.

O que podemos esperar do ciTechCare para o futuro?

Queremos crescer na área de Biomarcadores de doenças e estamos, neste momento, a tentar encontrar financiamento para a construção de um laboratório de diagnóstico avançado, que servirá de apoio ao Centro Hospitalar de Leiria, à nossa comunidade, e ao mesmo tempo aos nossos investigadores.

O ciTechCare é uma Unidade de Investigação financiada pela Fundação para Ciência e a Tecnologia, I. P. por fundos nacionais do Ministério da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior (UIDB/05704/2020 e UIDP/05704/2020).