O Electrão é, desde 2005, um dos motores da reciclagem de resíduos em Portugal, sendo, atualmente, a entidade gestora de maior relevância a atuar em Portugal na área da responsabilidade alargada do produtor de equipamentos elétricos e eletrónicos (EEE) e de pilhas e acumuladores (PA), merecendo a confiança de cerca de 2.000 empresas deste setor de atividade. Pedro Nazareth, diretor geral do Electrão, avalia em entrevista a evolução da reciclagem em Portugal e dá a conhecer as principais campanhas de “Sensibilização, Comunicação & Educação” desenvolvidas pela entidade.

Pedro Nazareth, diretor geral do Electrão
Pedro Nazareth, diretor geral do Electrão

O Electrão, entidade gestora de embalagens, pilhas e equipamentos elétricos usados, conta com mais de dois mil aderentes ao seu sistema de reciclagem. De que forma o Electrão ajuda estas empresas a cumprir as suas obrigações no âmbito da responsabilidade alargada do produtor?

Estas mais de duas mil empresas clientes transferem para o Electrão a responsabilidade pela recolha e reciclagem das embalagens, pilhas e equipamentos elétricos que comercializam no mercado português quando estes produtos e respetivas embalagens atingem o seu fim de vida útil. Esta oferta integrada é justamente a grande mais-valia da nossa organização, que possibilita às empresas assegurarem as respetivas responsabilidades de gestão de fim de vida, através de uma única entidade, o Electrão. Todos os produtores, embaladores ou distribuidores estão obrigados a submeter a gestão dos resíduos resultantes dos produtos que introduzem no mercado a uma entidade gestora do sistema de reciclagem. Trata-se de instrumento da política de ambiente e de gestão de resíduos que permite responsabilizar operacional e financeiramente estes operadores económicos pela gestão em fim de vida dos seus produtos.

Um produtor, importador ou distribuidor de um equipamento elétrico, por exemplo, que tem uma embalagem associada ao seu produto, com a respetiva pilha ou bateria, pode aderir ao nosso sistema, cumprindo todas as obrigações legais a que tem que responder, sem necessidade de se dividir em três sistemas, com todas as vantagens operacionais e financeiras que daqui advêm. Estas sinergias possibilitam que entreguemos os melhores resultados na gestão destes fluxos específicos de resíduos.

Qual a importância que as empresas atribuem hoje em dia à dimensão ambiental?

A dimensão ESG (Environmental, Social and Governance) é cada vez mais valorizada pelas empresas. Diz respeito a fatores de natureza não só ambiental, mas também social e de governança das sociedades que são cada vez mais críticos em todo o tipo de empresas e organizações. Compatibilizar a atividade económica com as questões ambientais é um desafio que está em cima da mesa de todos os conselhos de administração. É incontornável. Esta é uma urgência ditada pela mudança que o planeta reclama, que os consumidores exigem e a que as empresas têm que dar resposta.

Isto leva-nos para um outro desafio para o qual o Electrão tem alertado no âmbito das múltiplas campanhas que desenvolve. A reciclagem já não responde de forma suficiente às necessidades atuais do planeta. Não apenas porque ainda há uma margem muito grande de progressão nos sistemas de reciclagem, através do aumento da separação, da recolha seletiva, e da própria tecnologia de reciclagem, mas também porque é preciso mudar o nosso modo de vida, o nosso conforto egoísta se queremos verdadeiramente colocar em marcha a economia circular, indispensável na transição climática.

O nível de circularidade da economia mundial é apenas de nove por cento. Mesmo que os sistemas de reciclagem do mundo fossem 100 por cento eficazes, só garantiríamos 30 por cento das necessidades de consumo com materiais reciclados, o que significa que teríamos que continuar a extrair materiais da crosta terreste na ordem de 70 por cento para alimentar o consumo, que continua a crescer mundialmente.

Os portugueses estão mais conscientes para a importância da separação e encaminhamento para reciclagem dos resíduos produzidos?

O Electrão trabalha diariamente neste esforço de sensibilização e educação para levar os portugueses a reciclar cada vez mais e melhor contribuindo para o cumprimento das ambiciosas metas a que Portugal está vinculado.

A evolução é notória, ano após ano, fruto dessa aposta na sensibilização, mas há ainda um vasto caminho a percorrer. Conscientes do que há ainda a fazer lançámos em maio o movimento “Faz pelo Planeta By Electrão”. Trata-se de uma campanha que quer trazer para a ribalta os extraordinários ambientalistas anónimos que são cidadãos exemplares a este nível. Queremos que sirvam de inspiração e que se tornem verdadeiros “big changers”. Como salientam os influencers, que são nossos parceiros neste projeto, não é preciso operar grandes mudanças. Ter um saco reutilizável à porta, recusar as palhinhas, usar uma garrafa de água reutilizável e separar as embalagens, por exemplo, são pequenos gestos que podem fazer a diferença.

Este deveria ser um desígnio nacional que deveria merecer o envolvimento de todos os stakeholders, começando no cidadão, Governo e administração central, mas sem esquecer as autarquias e empresas. E porque o papel das empresas é fundamental queremos também premiar, no âmbito desta campanha em particular, os “corporate changers”, aquelas pessoas que fazem a diferença a este nível dentro das organizações e que funcionam como impulsionadores da mudança. O movimento “Faz pelo Planeta By Electrão” vai levar os dois vencedores, o “Big Changer” e o “Corporate Changer”, a uma viagem pelo maior parque florestal da Europa na Polónia.

Como avalia a evolução da reciclagem de resíduos de embalagens, pilhas e equipamentos eléctricos usados em Portugal?

Em 2020, em plena pandemia, o Electrão aumentou a recolha de embalagens, pilhas e equipamentos elétricos usados, o que é notável porque significa que apesar das limitações continuámos a contar com a colaboração da população e empresas para assegurar a recolha, triagem, tratamento e valorização de embalagens, pilhas, baterias e equipamentos elétricos usados. Durante o ano passado o Electrão reciclou quase 50 mil toneladas de embalagens usadas, o equivalente a cinco quilos por habitante, mesmo com o fator Covid-19, registando um crescimento de 19 por cento nas quantidades enviadas para reciclagem face ao ano anterior. Em 2020 foram também recicladas cerca de 17 mil toneladas de equipamentos elétricos fora de uso, o que corresponde a dois quilos de equipamentos elétricos usados por cada cidadão.

As quantidades de equipamentos elétricos usados recolhidas pelo Electrão cresceram em 2020 cerca de 20 por cento, comparativamente com o ano anterior, consequência direta da atividade da subsidiária Electrão Recolha e Reutilização que operou uma verdadeira alteração do modelo logístico da recolha e da expansão do número de locais de recolha no país. O Electrão recolheu ainda 346 toneladas de pilhas e bateriasusadas, ou seja, aproximadamente 34 gramas de pilhas e baterias portáveis per capita. É de salientar o reforço do número de locais da rede de recolha de pilhas e baterias que cresceu para mais do dobro passando de 2098, em 2019, para 4499 pontos de recolha em 2020. Todos estes números estão no Relatório Executivo que o Electrão acaba de lançar, que está disponível online e sintetiza, de forma simples e transparente, com recurso a infografias, os resultados alcançados em 2020. Apesar de todos estes resultados que nos motivam, temos total consciência que enquanto país temos que fazer muito mais e num curto espaço de tempo. Temos lançado diversas iniciativas para acelerar as alterações aos sistemas de reciclagem que entendemos importantes para percorrer este caminho. Mas começa em cada um de nós e na nossa esfera de atuação individual.

Na ótica do Electrão de que forma é que esses resultados poderiam ser melhorados a nível nacional?

O Electrão tem uma visão sobre algumas medidas que poderiam ser tomadas para alterar a situação, particularmente no que diz respeito aos equipamentos elétricos usados, que se confrontam com a problemática do mercado paralelo, que promove o desvio destes resíduos, face ao seu valor, impossibilitando que sejam descontaminados e reciclados com graves prejuízos para a saúde humana e ambiente.

Defendemos que deveria ser proibido misturar equipamentos elétricos usados com outros resíduos. Teriam que existir sanções e um reforço de fiscalização, tanto em relação a particulares, como a empresas. Os equipamentos elétricos usados ou outro tipo de resíduos volumosos só poderiam ser colocados à porta, por parte do consumidor, após o contacto com os serviços de recolha de monstros ao respetivo município. Seria importante que esses serviços implementassem recolhas porta-a-porta, com a entrega dos equipamentos através de contacto com o munícipe no momento exato da sua recolha, limitando o tempo em que os equipamentos estão disponíveis na via pública. Seguindo a mesma lógica as empresas deveriam entregar seletivamente os equipamentos elétricos, identificando as tipologias, para que não estes resíduos não fossem misturados. Os resíduos elétricos usados, como lâmpadas ou frigoríficos, com perigosidade acrescida, deveriam ser entregues direta e exclusivamente às entidades gestoras ou a operadores de gestão de resíduos com contratos com estas entidades de forma a impedir o extravio.

Importaria por fim, não menos importante, fiscalizar e sancionar os intervenientes da cadeia de valor do mercado paralelo, mas também fiscalizar e sancionar os operadores de gestão de resíduos, alguns dos quais deliberadamente promovem a desclassificação de equipamentos elétricos a resíduos ferrosos e não ferrosos, inviabilizando o seu correto tratamento.

Quem tem o poder para implementar essas medidas?

Estas medidas incidem sobre diferentes agentes da cadeia de valor de fim de vida, como municípios, sistemas de gestão de resíduos urbanos, empresas de instalação reparação e manutenção, distribuidores entre outros. Mas também sugerem uma intervenção mais conscienciosa por parte dos consumidores e das empresas geradoras destes resíduos no que diz respeito à correta separação e encaminhamento para reciclagem. Há também um papel da maior relevância para os organismos da fiscalização ambiental como o SEPNA ou a IGAMAOT na mitigação do mercado paralelo e informal. Naturalmente e a montante, o Governo e a Assembleia da República na definição e estabilização de um quadro legal e regulamentar que seja catalisador da implementação destas diferentes medidas e da atuação dos diferentes agentes.

A inovação é um dos valores do Electrão. Que tipo de projetos de I&D têm desenvolvido?

Um dos projetos mais emblemáticos desta área é a Academia Electrão, uma iniciativa que pretende promover os projetos que contribuem para a economia circular e sustentabilidade ambiental. Na primeira edição foram distribuídos 18 mil euros aos seis projetos vencedores. Este ano recebemos 78 candidaturas nas várias categorias a concurso, mais do que no ano passado, o que é revelador do interesse que a iniciativa está a gerar. Os resultados desta segunda iniciativa vão ser comunicados em julho e os prémios serão entregues em setembro.

O Electrão desenvolve inúmeras campanhas de “Sensibilização, Comunicação & Educação”. Quais as principais iniciativas a decorrer?

Além da mais recente campanha, o movimento “Faz Pelo Planeta By Electrão”, o Electrão tem reforçado as suas atividades de sensibilização, comunicação e educação.

Os bombeiros voltaram a aceitar o repto lançado pelo Electrão. Em plena pandemia a campanha “Quartel Electrão” atingiu um máximo histórico de recolha de pilhas e equipamentos elétricos usados, alcançando as 2.029 toneladas. Este foi o valor mais alto registado nas cinco edições. Também a campanha “Escola Electrão” está ativa este ano letivo. Até março deste ano foram recolhidas 140 toneladas de resíduos elétricos usados, ou seja, mais que as 125 toneladas recolhidas durante todo o ano letivo passado. A campanha TransforMar, em parceria com o Lidl, que em 2020 permitiu a recolha de um recorde de 47 toneladas de plástico, em 15 praias, convertidas em donativos monetários para apoiar 15 instituições, está de volta também este ano. Estas campanhas são apenas uma amostra de iniciativas que têm como objetivo contribuir para o aumento da recolha e reciclagem em Portugal.

Recolher, reutilizar e reciclar mais e melhor é um compromisso do Electrão. O que podemos esperar desta entidade para o futuro e quais as bandeiras que a guiarão, rumo à construção de um mundo mais sustentável?

O Electrão pretende continuar a desempenhar o seu papel de desenvolvimento e gestão dos sistemas nacionais de reciclagem contribuindo para um modelo económico nacional de maior circularidade e proteção ambiental na utilização dos materiais.  Os sistemas de reciclagem de elétricos, embalagens e pilhas em que já atuamos têm metas ambientais ambiciosas. No entanto existe uma diversidade de novos sistemas de reciclagem e fim de vida que têm que ser implementados e operados no país. Mas são desafios nacionais de equilíbrio ambiental, económico e social na medida em que o aumento da reciclagem tem implicações que importam acautelar como o aumento do preço dos produtos que consumimos.

Obrigado por reciclar - Electrão
Obrigado por reciclar – Electrão