Ao longo da nossa vida, o nosso cérebro armazena diversas memórias. Muitas dessas memórias são traumáticas e fazem-nos sofrer quando não são processadas corretamente. O EMDR afigura-se, cada vez mais, uma técnica de psicoterapia muito eficaz no tratamento de traumas e na busca pelo autoconhecimento e autocontrole. Damos-lhe a conhecer esta terapia inovadora, através da Associação EMDR-Portugal, a única entidade oficial que regula a prática do EMDR em Portugal.

Dra. Mónica Mexia - Psicóloga Clínica
Dra. Mónica Mexia – Psicóloga Clínica

O EMDR – Eye Movement Desensitization and Reprocessing é um poderoso modelo psicoterapêutico, eficiente no tratamento de experiências perturbadoras que vem suscitando, cada vez mais, interesse junto da população. O que é a psicoterapia EMDR e de que forma pode ajudar na resolução de experiências traumáticas?

O EMDR é um modelo psicoterapêutico concebido por Francine Shapiro, em 1987, para aliviar o mau estar e a perturbação associada a memórias traumáticas. Devido aos estudos realizados, considera-se hoje um modelo fundamentado pela evidência científica. É um modelo focado, breve e integrativo. Cada um processa os múltiplos elementos das nossas experiências e armazena as memórias de modo útil. As memórias, por sua vez, ligam-se em redes que contêm pensamentos, imagens, emoções, e sensações relacionados. Quando um evento traumático ou muito negativo ocorre, esse processamento de informação pode ficar incompleto, e a psicopatologia pode surgir como resultado de experiências processadas de forma inadequada/disfuncional. O trauma causa uma falha no processamento de informação, o armazenamento dessa informação traumática ocorre com falhas e permanece como congelado no tempo, sendo ativado no presente. O EMDR vai permitir ressignificar a experiência perturbadora, possibilitando dessensibilizar e reprocessar a mesma, permitindo construir uma continuidade no processo de identidade do indivíduo que ficou bloqueado aquando da ocorrência da experiência perturbadora. Trata-se de uma psicoterapia inovadora que pelas suas características permite resultados clínicos mais rápidos e sustentados. O EMDR é indicação de primeira linha para tratamento do trauma. É um modelo que é reconhecido pela OMS como intervenção psicológica avançada para as condições especificamente relacionadas com o stress traumático e encontra-se recomendado como tratamento eficaz. É utilizado para a dor crónica, luto, depressão, ansiedade, adições, fobias e perturbação de pânico, mas também para desenvolver capacidades através instalação de recursos positivos e melhorar o desempenho.

Todas as pessoas já viveram experiências traumáticas durante as suas vidas. Por vezes, o impacto de um trauma pode ficar connosco e afetar as nossas vidas muito depois do acontecimento inicial. Porque é que é tão especial uma experiência traumática e quais os seus efeitos ao longo da vida?

O ser humano é muito resiliente, cada pessoa tem um processamento adaptativo de informação, ou seja, tem a capacidade de processar eventos perturbadores, mas o trauma bloqueia/interrompe essa capacidade de processamento. A experiência traumática funciona como um bloqueio no processo de construção do indivíduo, ela representa uma falha na forma como vamos olhar para nós. Essa experiência vai determinar o nosso autoconceito, a capacidade de resposta e interpretação de outros acontecimentos e limitar o nosso processo de crescimento e adaptação, porque vai estar desajustado da realidade. Será este desajuste que vai penalizar o indivíduo e criar sofrimento. Importa referir que existem estudos que associam os eventos traumáticos a uma maior prevalência de certas doenças e até à diminuição de esperança de vida. Será exatamente pela consciência desta gravidade que o EMDR tem um processo de formação cuidadoso e sustentando nas melhores práticas e evidência científica, com a supervisão de casos por psicoterapeutas experientes, que desta forma garantem clínicos preparados para as patologias mais complexas.

A pandemia veio afetar irreversivelmente a forma como nos relacionamos connosco e com os outros. Qual o impacto da pandemia na saúde mental de adultos e crianças?

A pandemia deve ser considerada como um evento com elevado potencial traumático pela sua longa duração e afetação global, a nível individual e coletivo. Por esse motivo, a generalidade das pessoas que possuam trauma prévio ou fragilidade emocional anterior possuem maior vulnerabilidade para lidar com a pandemia. No caso das crianças, e pela sua dependência, o potencial traumático está naturalmente acrescido, existindo uma maior procura de consultas de psicoterapia nessa área. Naturalmente que a irreversibilidade das coisas apenas se dá quando não existem soluções para elas e, no caso do trauma, a psicoterapia EMDR têm-se confirmado uma mais-valia.

O EMDR tem-se revelado um tratamento extremamente eficaz para pessoas que viveram experiências traumáticas. Quais as possibilidades de intervenção da psicoterapia EMDR junto de crianças e adolescentes?

A psicoterapia EMDR considera que as crianças e adolescentes são um grupo de intervenção específico e, por isso, no seu plano de estudos e formação criou conteúdos específicos para a compreensão e intervenção credenciada nesses grupos. Esta é uma das diferenças que faz com que a intervenção com EMDR nestes grupos, seja realizada por psicólogos especializados e com formação em EMDR crianças e adolescentes (EMDR C&A), permitindo uma grande diferenciação na intervenção e, assim, resultados positivamente surpreendentes. No caso do trauma psicológico, existirem técnicos com este nível de diferenciação é, absolutamente, essencial e permite que esta intervenção seja feita desde fases pré-verbais até aos mais crescidos, com uma amplitude muito vasta de quadros clínicos.

Durante a infância, o cérebro vive o seu momento de maior desenvolvimento. Nesse período, é de extrema importância que os adultos assegurem proteção, cuidado, carinho e amor. Infelizmente, ocorrem situações incontroláveis e, dessa forma, algumas crianças acabam por vivenciar experiências traumáticas. Quais os principais sinais de alerta, indicativos de um possível trauma?

No caso das crianças e jovens o principal será sempre contactar um especialista para fazer essa avaliação, mas alguns sinais podem ser indicadores de que devemos procurar ajuda. Situações de regressão comportamental e emocional, alteração de comportamentos sem explicação evidente como aumento de agressividade, impulsividade, isolamento, dificuldade em se manter focado e aumento do estado de “distraído”, perturbação no adormecer ou mesmo na organização do sono, pensamentos intrusivos sobre determinadas situações, seriam algumas das situações a ter em conta. Naturalmente, existem outros elementos específicos para análise e será, exatamente, nesses que alguém com formação certificada em EMDR C&A será um poderoso aliado na identificação e intervenção nessas crianças, jovens ou famílias.

Quanto mais cedo os traumas ocorrem, mais enraizados tendem a ficar e a impactar toda a nossa vida. Perante isto, urge repensar a forma como olhámos para saúde mental das crianças e adolescentes? Essa é uma das exigências do EMDR, garantir que a saúde mental das crianças e adolescentes é vista como uma área do saber de grande especificidade e com uma necessidade extrema de formação orientada para as características do desenvolvimento de cada idade. O EMDR tem vindo a integrar novos conceitos, alguns deles desenvolvidos em Portugal por nós e apresentados em diferentes conferências nacionais e internacionais, que têm permitido aplicar o EMDR em cada vez mais situações do sofrimento emocional das crianças e jovens, inovando para patologias que até aqui não tinham respostas em outros modelos terapêuticos. O EMDR C&A assume-se como uma área do saber que trás respostas e inovação na perspetiva de olhar o trauma e sofrimento das crianças e adolescentes.