Ensino e investigação de mãos dadas em prol da saúde

Desde 1999, a Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior tem sido um exemplo no ensino e investigação na área da saúde. Em entrevista à Portugal em Destaque, o Prof. Doutor Miguel Castelo-Branco, presidente da Faculdade de Ciências da Saúde, deu a conhecer um pouco melhor esta unidade e o trabalho que desenvolve juntamente com o Centro de Investigação em Ciências da Saúde, que tem por missão promover investigação científica de grande qualidade nas áreas clínicas, bioquímicas e epidemiológicas.

Professor Doutor Miguel Castelo Branco - Presidente da Faculdade de Ciências da Saúde
Professor Doutor Miguel Castelo Branco – Presidente da Faculdade de Ciências da Saúde

É desde 2017 presidente da Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior. Podemos começar a nossa conversa por conhecer um pouco melhor o homem por detrás da profissão e de que forma foi traçando o seu percurso.

Fiz o curso de Medicina, na Universidade de Lisboa, e depois de o terminar fui fazer a especialidade em Medicina Interna, no Centro Hospitalar de Coimbra. Nessa altura tive a primeira oportunidade de trabalhar em investigação, numa vertente virada para os ensaios clínicos. A equipa em que trabalhei era uma equipa que se dedicava muito às diabetes e às doenças cardiovasculares e que foi daí que surgiu a minha ligação à doença cardio e cerebrovascular. Quando terminei a especialidade, a minha opção foi voltar para a Covilhã, de onde sou natural, e onde acabei, na altura, por entrar para o Hospital Distrital da Covilhã, como médico especialista em Medicina Interna. Passado pouco tempo, o então reitor da Universidade da Beira Interior convidou-me para começar a dar aulas na universidade, sendo que na altura, o único curso que havia de saúde era Optometria e Ciências da Visão. Acabei por aceitar trabalhar na universidade, como docente, dando início à minha ligação à área universitária. Mais tarde, surgiu a possibilidade da criação do curso de Medicina, um projeto que abracei com muita intensidade. Sentia que havia um conjunto de aspetos na formação que era necessário melhorar. Desde logo, o ensino da Medicina era, até então, muito tradicional, muito baseado em aulas teóricas. Para além disso, era um ensino muito baseado na transmissão de informação e não tanto no processo de aprendizagem ativa. No que diz respeito à parte de investigação, os trabalhos que tenho vindo a realizar continuam a ser ligados, essencialmente, à área cardiovascular e cerebrovascular, mas também na utilização de dispositivos médicos, na telemedicina e na parte das metodologias pedagógicas, entre outras questões. Esta é um pouco a dinâmica no que diz respeito ao ensino, ciência e investigação, em que tenho estado envolvido.

A Faculdade de Ciências da Saúde incorpora o CICS – Centro de Investigação em Ciências da Saúde. Que trabalho tem vindo a ser desenvolvido por esta unidade?

O Centro de Investigação em Ciências da Saúde é um centro creditado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) e que tem desenvolvido um conjunto de projetos em várias áreas, onde se faz, essencialmente, investigação de natureza básica, mas também translacional. Neste momento, estamos a desenvolver o Centro de Investigação Clínica, no contexto dos Centros Académicos, envolvendo os hospitais da rede da faculdade – hospitais de Viseu, da Guarda, de Castelo Branco e da Covilhã – e os centros de saúde das respetivas regiões, para dinamizar a investigação clínica. Recentemente, também criámos, para colaborar com o Centro Académico Clínico, um núcleo de apoio à investigação clínica dentro da faculdade, que tem estado a apoiar os hospitais no desenvolvimento e no incremento da parte dos ensaios clínicos e de projetos da iniciativa do investigador

Perante a situação de emergência provocada pela COVID-19, diversas instituições do sistema científico e tecnológico tradicional, universidades, e muitas outras entidades, foram chamadas a dar apoio a esta situação e a utilizar os seus laboratórios para testar e para desenvolver novas metodologias de diagnóstico para a COVID-19. Este foi também o caso do Centro de Investigação em Ciências da Saúde?

Recentemente, no âmbito da COVID-19, coordenei o projeto “CheckImmune”, aprovado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia. Este projeto, na área da imunidade, pretendeu avaliar a presença de anticorpos na população do distrito da Guarda e de Castelo Branco, quer em população com o histórico da doença, quer em população sem histórico da doença. Um outro projeto, também ele bastante interessante, consiste na utilização de uma substância natural como protetor contra a infeção do vírus. O Centro de Investigação em Ciências da Saúde, tem desenvolvido alguns trabalhos no âmbito da aplicação de produtos naturais, como frutas e outras plantas, cuja extração de substâncias, ou particularidades de alguns dos seus elementos, são possíveis protetores contra um conjunto de situações.

O ano de 2020 ficará marcado pelos desafios e superações. O novo coronavírus veio reforçar a importância de unidades de investigação, como o Centro de Investigação em Ciências da Saúde?

Acredito fortemente nisso. Esta situação veio sublinhar a importância da investigação e do trabalho desenvolvido por este tipo de unidades. O aparecimento deste tipo de investigação, virada para resolver problemas concretos e para dar respostas concretas, veio ajudar a focar a investigação. Veio demonstrar que a investigação a nível molecular é importante, mas que também é muitíssimo importante a investigação feita em populações e na área dos sistemas de saúde. Veio mostrar que também é necessário e importante pensar na sociedade, nas pessoas e na organização. Por outro lado, veio demonstrar que é possível acelerar processos de investigação, mantendo a sua fluidez e a sua base científica, e que os sistemas de apoio e o próprio financiamento têm de se ajustar e de ser dinâmicos, em função das necessidades que vão variando ao longo do tempo.

A atual pandemia veio realçar algumas fragilidades no sistema de saúde português. Como avalia o atual Sistema Nacional de Saúde?

Acho que é sempre importante reforçar que o Serviço Nacional de Saúde é um sistema de grande relevância e importância para a saúde dos portugueses. No entanto, é evidente que alguns dos seus aspectos requerem intervenção. Um deles tem a ver com os modelos de autonomia das unidades constituintes. As administrações necessitam de mais autonomia para fazer a gestão do seu próprio pessoal. Outra, tem que ver com a gestão de recursos. Sabemos que os recursos de saúde e os recursos financeiros não são infinitos e, por isso, é necessário fazer uma gestão adequada dos mesmos. Havendo uma boa gestão dos recursos, fazendo uma adequada distribuição dos mesmos e, ao mesmo tempo, uma razoável organização, garantindo que as pessoas têm os cuidados que precisam em tempo e forma adequados, penso que se resolveriam alguns dos principais problemas.

O que podemos esperar da Faculdade de Ciências da Saúde e do Centro de Investigação em Ciências da Saúde para o futuro? Temos um conjunto de trabalhos que têm vindo a demonstrar, ao longo dos anos, que a investigação e o desenvolvimento que se faz na Universidade da Beira Interior são de facto relevantes para a área da saúde. Por outro lado, estamos numa fase de consolidação dos Centros Académicos Clínicos. O futuro passará por continuar a apostar na qualidade do ensino e na investigação que acredito ter um potencial de crescimento e desenvolvimento muito significativo.