Tiphaine Janvier é hoje um distinto exemplo de empreendedorismo e liderança feminina. Co-Founder & General Manager da Fusion Project & Concept Consultants, a nossa entrevistada realçou a importância da liderança feminina e o seu impacto no processo de transformação social.

Tiphaine Janvier
Tiphaine Janvier, co-Founder & General Manager

A Tiphaine Janvier é um exemplo de excelência no profissionalismo e na liderança feminina. Comecemos por conhecer um pouco melhor a mulher por detrás do negócio e de que forma foi traçando o seu percurso profissional.

Ao longo da minha vida, sempre dei muita importância a cada uma das experiências que tive. Sempre tive os objetivos muito bem definidos e sempre soube que queria criar algo. Tirei uma licenciatura em Estudos Europeus e, mais tarde, um mestrado em Políticas Europeias. Quando frequentava o quarto ano de faculdade, decidi abraçar um emprego a part-time. Tratava-se de uma empresa na área de IC, que desenvolvia softwares de engenharia civil, e onde o meu papel era fazer traduções – de português para francês -, promover a empresa e o software que ela desenvolvia. No decorrer dessa experiência, acabei por conhecer o representante de uma multinacional francesa, que trabalhava com fundos comunitários e com benefícios fiscais, e que pretendia abrir uma filial em Portugal. Obviamente, fiquei fascinada. Como estava a terminar a licenciatura em Estudos Europeus e queria ingressar no mestrado em Políticas Europeias, percebi, imediatamente, que era a minha oportunidade. Essa pessoa pediu para lhe enviar o meu currículo passado um ano, ou seja, após concluir o meu mestrado, mas como sempre fui uma pessoa muito objetiva, pragmática e que sempre quis ser útil, não esperei um ano e, depois de entender quais eram as necessidades reais da empresa e de que forma é que o meu projeto de mestrado os poderia ajudar, entrei em contacto. Iniciei o estágio enquanto fazia o meu mestrado e, depois de defender a tese, fui convidada para assumir o cargo de business developer. A partir dessa data toda a minha aprendizagem se desenvolveu a par com o marketing estratégico, operacional e na área de comunicação, tendo assumido o cargo de marketing manager uns anos mais tarde e ainda, integrado o comité de direção da filial portuguesa, sendo que era a mais jovem mulher a integrar este comité. No entanto, chegou uma altura em que percebi que queria fazer algo diferente. Tinha tido uma experiência muito enriquecedora que me tinha dado um grande conjunto de competências e que, agora, desejava aplicar num projeto diferente. A grande dúvida era perceber que projeto seria. Na altura, contactei o meu atual sócio, que tive oportunidade de conhecer num evento ligado à inovação, e com quem tinha tido uma grande empatia, para lhe pedir uma opinião. Acabou por surgir a ideia de criarmos uma empresa juntos, o que acreditei que fazia todo o sentido, uma vez que, conseguiríamos desta forma juntar dois perfis distintos, mas que se complementavam.  Assim, surgiu a Fusion Project & Concept Consultants, em 2018.

A Fusion Project & Concept Consultants surgiu em 2018, sendo hoje uma empresa de sucesso na área de consultoria de conceito.  Fale-nos um pouco mais sobre este projeto e de que forma se diferencia no mercado.

A Fusion surge em 2018 com o objetivo de criar uma consultoria de conceito tendo por base a fusão de culturas e disciplinas, e desde então as coisas foram acontecendo de forma muito orgânica.  Nessa altura, havia muitos investidores estrangeiros em Portugal, que desejavam investir no nosso país, mas que não sabiam como, nem onde.  Começámos a ser contactados por esses investidores que necessitavam de ajuda no processo, ou seja, necessitavam de uma consultoria ligada à parte estratégica. O nosso papel, numa primeira fase, era o de alinhar a estratégia do investidor à estratégia do município, onde desejavam investir. Trabalhamos com três segmentos de mercado, o público, o privado e particulares, pelo que tanto desenvolvemos projetos de negócio, como projetos desportivos e de intervenção urbana. Concluída a fase estratégica, iniciamos o desenvolvimento do conceito do projeto de arquitetura, que envolve sempre uma grande dose de criatividade e originalidade por parte da equipa, para que cada projeto tenha uma identidade única, desenvolvemos conceitos ‘fora da caixa’. Daí a origem do nosso slogan ‘Seriously Creative’. Para nós, a consultoria de conceito, passa por criar espaços que tenham por base conceitos diferenciados e com uma identidade própria. Acredito que, complementarmente, a viabilização dos projetos é também um diferencial da Fusion. O acompanhamento dado aos investidores desde início, com o objetivo de viabilizar e permitir que estes projetos se tornem possíveis, é fulcral e torna a Fusion num projeto único.

Com um percurso profissional notável, onde impera a vontade de aprender, mas sobretudo de abraçar novas experiências, a Tiphaine Janvier é um distinto exemplo de empreendedorismo e liderança no feminino. O que a inspira e motiva diariamente enquanto mulher e profissional?

O que mais me inspira é a possibilidade de poder fazer acontecer. Na Fusion, eu tenho a possibilidade de ajudar a concretizar sonhos de uma vida. De facto, existem projetos que estão há vários anos ‘na gaveta’ e que precisam do nosso acompanhamento para se tornarem realidade. O facto de poder contribuir para concretizar esses projetos, e saber que isso também poderá ter um grande impacto social, é muito emotivo. Por outro lado, sou também muito motivada pela aprendizagem diária que esta área me dá. Nunca há um dia igual ao outro e essa diversidade de desafios é fascinante. A sensação de saber que posso ajudar as pessoas a realizar os seus sonhos, aliada ao desafio de aprender e fazer sempre mais, é a minha grande motivação.

Empresária, co-Founder & General Manager da Fusion Project & Concept Consultants e esposa. Como consegue criar um equilíbrio entre a exigente esfera e profissional e pessoal?

Procuro dedicar-me de igual forma à vida pessoal e à profissional. Esse equilíbrio só é possível graças ao apoio familiar que tenho. A partir do momento em que existe apoio familiar, tudo é possível. Para além disso, se pudermos juntar ao apoio familiar a flexibilização de horários, a flexibilização do local de trabalho e a noção de bem-estar, conseguimos atingir os nossos objetivos. Na Fusion, mesmo antes da pandemia, já tínhamos em vigor esta política de flexibilização de horários e do local de trabalho, isto também porque dependemos, em parte, da criatividade que, como sabemos, não tem horários definidos. Diria que estes quatro aspetos, que para mim são imprescindíveis, são fundamentais para que se consiga alcançar um equilíbrio perfeito entre a esfera pessoal, social e profissional.

As mulheres assumem, cada vez mais, um papel preponderante na sociedade e nas empresas a realidade não é diferente. Quais são, na sua opinião, as características diferenciadoras da liderança feminina?

Obviamente, existem características biológicas e neurológicas que acabam por diferenciar o homem e a mulher. O homem é, tendencialmente, visto como alguém mais racional, enquanto que a mulher é considerada mais empática. A liderança feminina é marcada sobretudo pelas soft skills das mulheres. Nós, mulheres, temos a empatia, a capacidade de criar relações interpessoais e de inspirar outras pessoas, ou seja, mais do que ser chefes, conseguimos ser líderes. Todos sabemos que a satisfação do cliente está no centro das preocupações das empresas. Essa satisfação consegue-se com esta preocupação, com esta empatia, com a escuta ativa, com a aplicação das soft skills intrínsecas às mulheres. Porém, é de realçar que os homens, cada vez mais, têm a preocupação de adquirir estas competências, que apesar de não serem intrínsecas, são passíveis de serem desenvolvidas, através, por exemplo, de coaching. Quanto a mim, depressa percebi que a minha sensibilidade me ajudava e prejudicava, e que por isso era necessário conjuga-la com a disciplina e racionalidade da gestão, desenvolvendo planos de ação, delineando metas, monitorizando indicadores de performance, que me permitissem ser crítica e ágil nas minhas ações. É necessário trabalhar e apostar na formação e foi por isso que tirei um curso na International Coaching and NLP Training Academy. Efetivamente, homens e mulheres têm características importantíssimas e que são uma mais-valia para os cargos de chefia que ocupam e/ou para as empresas que lideram. Por isso, acho que, cada vez mais, o sucesso passa por juntar as competências dos dois e encontrar um equilíbrio.

Tiphaine Janvier
Tiphaine Janvier

Muito mais do que o simples ato de empreender, o empreendedorismo feminino pode, e deve, ser visto também como um importante instrumento de transformação social?

Sim, sem dúvida. Sabemos que as principais dificuldades que temos nas organizações estão intimamente ligadas à esfera social. Isto porque, na esfera social, a mulher era vista como a que cuidava dos filhos e que tinha as responsabilidades familiares, era vista como uma pessoa extremamente emotiva, pouco racional, que não conseguia tomar decisões, ou gerir equipas. Ora, os comportamentos da esfera social têm-se alterado, as responsabilidades familiares já não são somente depositadas nas mulheres, o que nos permite perfeitamente conciliar o nosso papel enquanto esposa ou mãe com os nossos compromissos profissionais. Atualmente, também assistimos a uma mudança de mentalidades nas organizações, começam a perceber que nós, mulheres, também conseguimos ser boas profissionais, boas empresárias e boas gestoras. Tal como referi anteriormente, é graças à minha esfera social que eu consigo ter um meu projeto de empreendedorismo. Por isso, os dois têm obrigatoriamente que mudar em simultâneo. Não existe outra forma.

Estima-se que em Portugal cerca de 35 por cento dos novos negócios são fundados e liderados por mulheres. Que conselho gostaria de deixar a todas as mulheres que, tal como a Tiphaine Janvier desejem arriscar e marcar a diferença?

O medo de não se ser bem-sucedido vai sempre existir. No entanto, se houver a ousadia, se não houver o medo de falhar e se tivermos consciência dos nossos pontos fortes e dos nossos pontos fracos, conseguimos construir o que nós quisermos. Vejamos: se tiver consciência dos meus pontos fortes, vou procurar potencia-los; se tiver noção dos meus pontos fracos, vou procurar corrigi-los e melhorar. A partir do momento em que temos estas ferramentas, é só avançar. No fundo, é não ter medo de arriscar, mas querer simultaneamente melhorar.

O início de um novo ano traz consigo novas oportunidades. O que podemos esperar da Fusion Project & Concept Consultants para 2021? Obviamente, a pandemia trouxe alguns desafios. Tivemos clientes que queriam investir em determinados projetos e que tiveram de adiar o seu início. Por outro lado, também tivemos clientes que viram estas dificuldades como uma oportunidade e lançaram-se, mesmo assim. O ano de 2020 foi muito desafiante, tínhamos vários projetos de 2019 que pretendíamos lançar, mas que acabaram por ser adiados. Acredito que 2021 será sobretudo um ano de concretização destes e de novos projetos, de diversas tipologias, tanto na esfera do público, como do privado.