Exemplo de rigor, ética, competência e humanidade

Doutora Maria João Padrão
Maria João Padrão

Psicóloga clínica, psicoterapeuta e investigadora da Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade do Porto, a Prof. Doutora Maria João Padrão é, hoje, um exemplo de excelência no profissionalismo e de sucesso na liderança feminina. Foi com ela que estivemos à conversa para conhecer um pouco melhor o seu percurso e de que forma o projeto que lidera, a clínica Maria João Padrão – Psicologia Clínica, assume especial importância numa altura em que os afetos sofreram um violento ataque.

Rosto conhecido, a nível nacional, na área da psicologia clínica e psicoterapia, a Prof. Doutora Maria João Padrão é hoje um exemplo de excelência no profissionalismo e liderança. Comecemos a nossa conversa por conhecer um pouco melhor a mulher por detrás da profissão.

Irónica a situação em que me coloca. Agora estou eu no divã! Inconformismo talvez seja a palavra que melhor me define enquanto ser humano e enquanto profissional. A formação nunca é suficiente, as práticas instituídas são sempre para ser questionadas e melhoradas e há sempre um espaço, na mente aberta, para a inovação e renovação. Talvez a educação de inigualável sensibilidade e fortemente artística que os meus pais me dedicaram tenha contribuído para este meu espírito crítico e livre. Em grande medida, revejo-me na ode de Ricardo Reis quando diz: “Põe tudo quanto és no mínimo que fazes”. Sou profundamente apaixonada pelo que faço e entrego-me inteiramente na relação terapêutica, sabendo que a empatia e a relação são os grandes alicerces de transformação humana.

A Prof. Doutora Maria João Padrão vem desenvolvendo um trabalho de grande contributo para a compreensão das perturbações alimentares. De que forma vem traçando o seu percurso profissional?

Iniciei a minha atividade profissional no penoso mundo da Proteção de Menores, onde via a infância a ser roubada das mais diversas formas. Quando tinha de ir a alguma instituição de acolhimento, saía de lá lavada em lágrimas. Não que visse maus-tratos, ou algum tipo de violência. Muito pelo contrário. Sempre vi o maior cuidado por parte dos técnicos e auxiliares, mas a carência emocional daquelas crianças tocava-me na alma. Experienciei vividamente a importância estrutural da infância no desenvolvimento humano que tinha estudado nos livros. Dediquei-me, simultaneamente, desde muito cedo, à prática clínica, tendo continuado, até hoje, a minha formação nesta área tão preciosa da cura psíquica pelo amor: a psicoterapia. O meu interesse pela área das perturbações do comportamento alimentar surgiu quando, ainda muito jovem, fiz estágio no Núcleo de Perturbações do Comportamento Alimentar no Serviço de Psiquiatria do Hospital St.ª Maria, onde me deparei com dogmas e práticas instituídas que era necessário ultrapassar. Dediquei-me com afinco à procura de compreensão desta forma de adoecer psíquico, particularmente, da Anorexia Nervosa, tendo desenvolvido teorias e práticas inovadoras que mereceram o reconhecimento internacional. Em 2013, tive a enorme honra de ser considerada pelo Psychology Progress – Centre for top Research in Psychology como um dos mais importantes vultos na área, com resultados inéditos e, até hoje, imbatíveis em todo o mundo. Penso que tudo isto se deve à compreensão profunda desta forma de sofrimento psicológico. A Anorexia Nervosa nada tem a ver com vaidade, por muito que o seu início possa ser motivado por uma “simples” dieta para perda de peso por motivos estéticos. É uma doença que se vai instalando, de forma insidiosa e silenciosa, até para o próprio. Depois, para sair da prisão anorética, é necessária uma intervenção especializada que compreenda a profundidade da importância da ditadura dos números. E o estranho sentimento de vitória sempre que o peso na balança diminui, mesmo quando a saúde e a vida estão em perigo. É igualmente fundamental envolver a família no processo de cura de uma doença da qual todos são vítimas. É nisto que eu acredito, na veemência absoluta de tudo aquilo a que eu e a minha equipa nos entregamos. O meu percurso profissional também tem sido pautado pela formação contínua em Psicoterapia nas suas várias formas, desde a Psicanálise, passando pela Sexologia Clínica à Terapia de Casal. Com cada paciente, com cada casal, com cada família, o meu lema é: “Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas, ao tocar uma alma humana, seja apenas, outra alma humana” – Jung.

A clínica Maria João Padrão – Psicologia Clínica surgiu em 2017, sendo hoje uma clínica de referência na área da Psicoterapia. Em que momento decide apostar neste projeto e de que forma se vem diferenciando no mercado?

O projeto, na realidade, começou em 2007, quando iniciei a minha prática clínica. Ao longo dos anos, foi crescendo a necessidade de dar uma resposta cada vez mais especializada e integrada às necessidades que iam surgindo por parte dos pacientes que me procuravam. A minha grande intenção clínica era preencher uma lacuna a nível nacional de um espaço que desse uma resposta de qualidade ao nível da saúde mental, integrando as diversas disciplinas que a compõem. Em 2017, aposto na criação deste projeto, avançando na constituição da clínica com um “núcleo duro” de terapeutas que hoje lideram os diversos departamentos. Assim, inaugurámos um movimento inspirador com uma equipa multidisciplinar altamente formada, que tem vindo a crescer, desde então. Procuramos diferenciar-nos, quer pela formação técnica altamente especializada, quer pela ligação à comunidade científica e às diversas universidades nacionais e internacionais em que estamos integrados, quer pela dimensão humana dos nossos profissionais.

Atualmente, quais os serviços disponibilizados pela clínica Maria João Padrão – Psicologia Clínica aos seus pacientes?

Procuramos dar resposta em todas as vertentes da saúde mental: da Psicologia Clínica e Psicoterapia à Psiquiatria; da primeira infância (Intervenção Precoce/Neurodesenvolvimento), aos adultos mais velhos (Psicogerontologia); da Psicoterapia Individual, à Terapia de Casal, sexual e familiar. Recentemente, criámos o departamento de Recursos Humanos, no sentido de dar resposta às necessidades desenvolvimentais das pessoas e das organizações em que se inserem. Providenciamos ainda supervisão e acompanhamento contínuo aos nossos profissionais, trabalhando sempre numa ótica de desenvolvimento pessoal e profissional do terapeuta. Rigor, competência, ética, humanidade.

O ano de 2020 trouxe grandes desafios. A pandemia veio afetar irreversivelmente a forma como nos relacionamos connosco e com os outros. Qual o impacto da pandemia na saúde mental?

Recorre a uma expressão que tenho vindo a usar junto dos meus alunos, de uma realidade que tenho vivido junto dos meus pacientes. De facto, esta pandemia veio mudar, irreversivelmente, a nossa relação connosco próprios e com os outros. Este vírus privou-nos do contacto, da pele, privou-nos de muitos dos que amamos. Foi um violento ataque aos afetos. E, como sempre me dizia o meu estimado Prof. Dr. Joaquim Luís Coimbra: “Não há nada mais profundo do que a nossa epiderme”. Estamos na “crise do contacto” como sabiamente diz a nossa psicóloga infantil Francisca Ferreira. A ausência de contacto é depressiva e faz-nos entrar em contacto com os nossos núcleos neuróticos e psicóticos mais dolorosos. Esta solidão veio também vestida de uma outra forma, talvez mais grave porque trouxe possivelmente consequências que vão demorar muito a reverter. As crianças foram privadas dos contactos com outras crianças, com familiares e, acima de tudo, com os avós. Para além disso, esta pandemia reverteu os afetos. Dificilmente consigo imaginar maior violência do que esta: a pandemia tornou o mais puro abraço de amor numa arma potencialmente letal. Muito possivelmente, teremos um longo caminho de cura a percorrer com as crianças ‘filhas da COVID’, não só das feridas da saudade, mas essencialmente de cura do medo que, como sabemos, é dos maiores inimigos do desenvolvimento psicológico saudável.

Doutora Maria João Padrão
Maria João Padrão

A clínica registou um aumento da procura, fruto do impacto negativo provocado pelo período de confinamento?

As perturbações depressivas, aditivas, de ansiedade ou de controlo (como as perturbações alimentares ou as obsessivo-compulsivas) pioraram significativamente. Quem já sofria, piorou, e para quem estava na eminência de desenvolver alguma perturbação, a pandemia e o confinamento foram o trigger para o seu efetivo desenvolvimento. As crianças, quer fruto do que a pandemia e o confinamento lhes provocaram diretamente, quer pela tensão vivida dentro de cada família, foram, juntamente com os adultos mais velhos, os que mais sofreram. Se, por um lado, lamento profundamente este cenário tão devastador para a saúde mental, por outro, não posso deixar de sentir contentamento e admiração pela resiliência e pela recusa em deprimir que a humanidade revelou. Perante a imprevisibilidade, a angústia, a ansiedade causada pela conjuntura, as pessoas não se permitiram deprimir e ceder ao abismo do sofrimento psicológico. A procura de ajuda é reveladora de uma força de resistência, de uma vontade de evolução e superação. Não há nada mais estimulante para um psicólogo do que isto. A pandemia deste século XXI permitiu que a sociedade colocasse umas lentes atentas sobre a saúde mental.

O papel da Psicoterapia afigura-se hoje, ainda mais, de incontornável importância no resgate de afetos?

É precisamente isso que toda a humanidade precisa. Relembro que, como dizia Freud, “A psicanálise é, em essência, a cura pelo amor”. É o encontro da subjetividade única, irrepetível e sagrada do outro. É o retorno à essência e o encontro da paz que daí advém. É a reaprendizagem do “estar com” o outro. A psicoterapia é o caminho da verdade e da autoconstrução. No final desse caminho, há todo um “eu” renovado, limpo e livre para ser feliz. Como digo, vezes sem conta, no final da nossa jornada, na hora de partirmos, o que levamos são os que amamos, o amor que construímos, a verdade que somos.

Excelência, profissionalismo e dedicação têm marcado a história da clínica. O que podemos esperar para o futuro?

Esta clínica é para todos nós – pacientes e profissionais – um local de encontro e crescimento pessoal. É constituída por uma equipa que não desiste de ser cada vez melhor. E é neste sentido que iniciaremos, no próximo ano, uma escola de formação que esperemos que seja inaugural na área da Psicologia e da Saúde mental. À entrada da clínica, pode ler-se “Prometo ouvir-te como se a tua voz fosse a minha”. Agora, e no futuro, é esta a premissa da empatia que nos liga a quem nos dá o privilégio de nos confiar a sua vida interior.

Doutora Maria João Padrão
Maria João Padrão