O desafio de assumir a liderança no feminino

Grupo ETRA

Assumir a função de Country Manager da ETRA Portugal, Grupo A.C.S., em plena pandemia, foi algo inesperado na carreira de Carmo Castro que, desde outubro, tem em mãos o desafio de reestruturar esta empresa que conta com mais de quatro décadas de história. Fique a conhecer, nesta edição, a Diretora Geral que comanda este grupo em Portugal.

É, atualmente, Diretora Geral da ETRA Portugal. De que forma foi sendo traçado o seu percurso e em que momento aceita o desafio de assumir este cargo? O que realmente a motivou?

Trabalho desde os meus 17 anos e posso dizer que já fiz um pouco de muita coisa. Sempre trabalhei por conta própria, algo que me permitiu conciliar a vida profissional com as prioridades familiares, que me foram exigidas com o nascimento dos meus filhos. Sempre tive o objetivo de ter uma família numerosa e hoje sou mãe de cinco filhos: o André, de 12 anos, a Beatriz, de 11, o Afonso, de 7, o Gonçalo, de 6, e a Carminho, de 5. Posso dizer que a minha vida profissional tem vindo a ser traçada a par com a vida familiar e, por isso, optei primeiro por trabalhar a partir de casa até os meus filhos completarem três anos.

Para além de todo o conhecimento que fui adquirindo ao longo do meu percurso profissional, nos últimos dois anos, investi na formação profissional. Em 2018 fiz a Pós-Graduação de Direção Comercial no INDEG-ISCTE, e foi aí, que um professor me convidou para uma entrevista na Helexia, onde estive até agosto, a trabalhar na área comercial de Projetos Fotovoltaicos de Autoconsumo e carregadores elétricos. Foi uma experiência maravilhosa, numa multinacional francesa (Grupo Mulliez), e que me deu um boost enorme de convivência laboral. Entretanto, investi também em formação na AESE, Advance Management of Energy, durante cinco meses, que me permitiu crescer em conhecimento e duplicar a minha rede de contactos no setor da energia e que, simultaneamente, despertou em mim uma sede de formação que, até à altura, não tinha. Desde então, tenho estado presente em vários congressos, palestras e formações, e posso afirmar que, com toda a certeza, aprendi imenso nos últimos anos.

Apesar de, no último ano, terem surgido diversas propostas para integrar outros projetos, confesso que não me imaginava a sair da Helexia, por gostar tanto do projeto e da equipa que fazia parte dele. No entanto, tudo mudou quando entrei no processo de recrutamento internacional para a posição que estou a exercer desde o dia 16 de outubro. A vaga disponível era aliciante a todos os níveis, mas principalmente porque seria para liderar uma reestruturação. Um desafio incrível. Confesso que inicialmente não acreditei que fosse a candidata escolhida, porque era um concurso para engenheiros, e eu não tenho essa formação académica. Acho que só acreditei mesmo quando a última entrevista foi agendada para dia 16 de julho, que, curiosamente, é o dia de Nossa Senhora do Carmo.

Depois de selecionada, estive mais de um mês em Espanha a receber formação e a conhecer todo o Grupo ETRA. Um grande desafio, considerando que estávamos plena pandemia. No entanto, não podia estar mais satisfeita. As pessoas que já faziam parte da empresa receberam-me de braços abertos e, felizmente, estamos a conseguir implementar as mudanças que nos foram solicitadas. É óbvio que num processo de reestruturação como este, que envolve uma equipa de 34 pessoas, existem alguns desafios, mas acredito que a equipa conseguirá alcançar os objetivos pretendidos. O primeiro desafio e objetivo prende-se com o core business da empresa, porque pretendemos que passe a ser uma linha de negócio, como muitas outras. Outro desafio é o de voltar a ganhar concursos públicos de maior dimensão e de outras áreas de negócio, em que já somos líderes em Espanha. No entanto, considero que o maior desafio é este que vivemos. Continuar a trabalhar em segurança e correndo o risco da COVID.

A realidade é que, para além de líder, dentro da ETRA Portugal, também é mãe de cinco filhos e esposa… É incontornável perguntar como consegue conciliar a exigente vida profissional com a pessoal?

Vivo um dia de cada vez e vou aproveitando as oportunidades que vão surgindo. Se está a ser desafiante? Claro que está. Em plena pandemia, estive mais de um mês fora de casa, mas tive o cuidado de explicar que o crescimento não é só meu, mas de toda a família e que todos ganhamos. Estive algum tempo ausente, e desde que entrei os horários são outros, por isso, é necessário um esforço conjunto porque, no fundo, somos uma equipa. A minha família e os meus amigos sabem que é exigente, porque estou num processo de reestruturação, e todos me têm ajudado imenso. Mas acredito que é temporário. Depois de tudo reorganizado, entraremos em velocidade cruzeiro. Uma coisa que aprendi foi que temos de perceber qual é o nosso preço/hora. Se queremos aumentar esse preço temos de abdicar de algumas coisas e de aprender a delegar. Eu tive, exatamente, que delegar algumas das funções que tinha, por isso, se me pergunta se sou uma supermulher? Não, não sou. Acredito num lema (há muito tempo): “Se queres ir rápido vai sozinho. Se queres chegar longe, vai em equipa e delega.”

Na ETRA Portugal também não sou só eu. Já existia um grupo espetacular, que me recebeu de braços abertos e com quem estou a formar a melhor equipa. A ETRA Espanha tem sido incrível comigo na própria empresa há uma grande preocupação de conciliar estes dois lados, trabalho e família.

As mulheres assumem, cada vez mais, um papel preponderante na sociedade e nas empresas não é diferente. Quais são, na sua opinião, as características diferenciadoras da liderança feminina?

Não sou do tipo de pessoas que pensa que as mulheres deveriam ter mais direitos, ou outras posições relativamente aos homens. Não sou o estereótipo de feminista. A minha avó não trabalhou e não era por isso inferior ao meu avô. Eu estive em casa e conciliei o tipo de trabalho que tinha na altura para poder acompanhar os meus filhos. Acredito que somos todos iguais e que devemos ser avaliados de igual forma.  Se me perguntarem se nós, mulheres, estamos a assumir cada vez mais uma posição preponderante? A minha resposta é um pouco ambígua, porque acredito que isto pode ter duas interpretações.

Por um lado, acredito que sim. Acredito que estamos a investir mais na nossa formação, intuitivamente somos mais organizadas e mais despachadas, o que, a longo prazo, se reflete nas oportunidades que vão surgindo. Por outro lado, não nos podemos esquecer que o preço que pagamos por estar fora de casa é mais elevado, e isso não é medido. É um risco quando estamos demasiado tempo fora de casa e nos ausentamos da família. Há que analisar os prós e contras. Acho que, neste momento, não podemos dizer que as mulheres são melhores líderes, mas podemos, com toda a certeza, afirmar que as mulheres estão a ganhar poder. A minha decisão de aceitar este desafio foi por uma questão de timing e não de ambição. Felizmente, tenho um marido que me ajuda imenso, os meus filhos já estão mais crescidos e por isso também já ajudam no que é necessário, logo, tornou-se mais fácil aceitar este desafio. Já diz o ditado: “Atrás de um grande homem está uma grande mulher”. O contrário também se aplica e não é, de todo, depreciativo.

Portugal afigura-se um dos melhores países do mundo para as mulheres prosperarem enquanto empreendedoras. No entanto, ainda há um árduo caminho a percorrer. Como é ser mulher e líder num cargo de topo empresarial, em Portugal?

Tal como já referi, no processo de recrutamento fui a única mulher e não era engenheira (requisito mínimo obrigatório). Aqui, o que me diferenciou foi saber “vender-me”. Recordo-me que num grande evento Sales Shaker, o ano passado na NOVA SBE, o Luís Rodrigues, antigo CEO da NOVA SBE Carcavelos e agora CEO da Sata Azores Airlines, disse: “Nós, portugueses, temos o melhor, mas não nos sabemos vender”. Penso que tudo começa por aqui. Vivemos num dos países com piores salários, porque nos “vendemos” mal desde o dia da primeira entrevista e isto vai-nos acompanhando ao longo das décadas.

O ano de 2020 trouxe consigo inúmeras mudanças, um pouco por todo o mundo, e milhares de empresas tiveram de se readaptar a uma nova realidade. Qual é o novo normal da ETRA Portugal?

2020 está a ser “o ano” a diversos níveis. Primeiro a COVID-19, um desafio que chegou para pôr todos à prova e depois, a nível pessoal, a minha entrada na ETRA Portugal. Ainda nos estamos a adaptar a todas as mudanças que esta reestruturação está a trazer, dentro de todas as restrições. Desde logo, mudamos o nome da empresa, que deixou de ser Eyssa-Tesis e mudou para ETRA Portugal. A Eyssa-Tesis foi líder de mercado mais de 30 anos na área da semaforização em Portugal e encontrei uma equipa em que alguns dos meus colegas têm mais de 45 anos de casa… uma vida.

Para o futuro, temos em mente alguns objetivos que gostaríamos de atingir. Desde logo, mudar de instalações, sendo que espero até ao final do ano ter esse objetivo cumprido. Um outro objetivo, e que já está a ser posto em prática, é a reestruturação de toda a parte organizacional da empresa, dividindo-a por departamentos e criando linhas de negócio. Para além disso, pretendemos continuar a investir na formação dos nossos colaboradores e que, no início do próximo ano, a nossa equipa possa crescer. Aumentar a faturação também é um dos objetivos a atingir no futuro, sendo que a empresa já vai terminar este ano com uma faturação mais elevada do que estava previsto. Acho que ainda é cedo para o dizer qual é o “novo normal” da ETRA Portugal, mas gostava, sem dúvida, que o normal fosse a ETRA Portugal reconhecida como a melhor empresa para se trabalhar.


Mensagem a…
Todos os profissionais que, tal como a Carmo, estão a assumir cargos de liderança em plena pandemia.

Acima de tudo que não podemos deixar ninguém para trás. O cuidado pelo outro é fundamental. Relembrar que a empresa não parou em teletrabalho. Felizmente não fomos afetados pela pandemia, o que é uma bênção. Parte da empresa está em casa, mas temos de estar sempre ativos e próximos. Estamos apenas à distância de uma chamada de vídeo, ou de um telefonema. Temos que continuar a assegurar boas condições aos nossos colaboradores. Se isto é fácil? Não é, mas também não é impossível. É óbvio que vivemos momentos conturbados, mas não podemos desesperar, porque esta situação é provisória. Acho que é fundamental mostrar tranquilidade e, acima de tudo, mostrar que as pessoas não estão sozinhas. Mostrar que somos uma equipa.