Carlos Garcia é o rosto por detrás da Reginacork, uma empresa de referência nacional na área da indústria corticeira, que lhe damos a conhecer nesta edição. Sediada em Pinhal Novo, distrito de Setúbal, a Reginacork é, hoje, um distinto exemplo de resiliência e determinação profissional. Em entrevista à Portugal em Destaque, o administrador recordou o percurso traçado pela empresa, deu a conhecer o mais recente investimento feito na área de produção de pellets, reforçou a importância da união e espírito de equipa para o sucesso do projeto e revelou um dos principais objetivos para o futuro: tornar a Reginacork uma empresa 100% verde.

CARLOS GARCIA ADMINISTRADOR DA REGINACORK
CARLOS GARCIA ADMINISTRADOR DA REGINACORK

Fundada na década de 90, a Reginacork é uma referência nacional na indústria corticeira, sendo hoje fonte de trabalho para centenas de trabalhadores, de forma direta e indireta. Fale-nos um pouco mais deste projeto e de que forma foi traçando o seu percurso.

A Reginacork nasceu em 1994, em Pinhal Novo, e ainda hoje mantém a sua génese familiar. Começámos com uma pequena empresa, cujo trabalho consistia na produção e preparação de pranchas. A partir daí, fomo-nos adaptando às oportunidades de mercado que foram surgindo, mas mantivemos sempre a cortiça como espinha dorsal do negócio. Como a preparação de cortiça era um negócio com horizontes limitados, decidimos apostar, mais tarde, nos triturados e, posteriormente, nos granulados de cortiça. O ano de 2016 ficou marcado na história da Reginacork com a introdução de um novo produto: os pellets. Foi construída a unidade de produção de pellets (um combustível ecológico alternativo ao fóssil, com custos muito inferiores para o consumidor e benefícios acrescidos para o meio ambiente) de uso industrial e doméstico, representando um investimento de 8,5 milhões de euros.

Em 2016, a empresa iniciou a instalação de uma nova unidade de fabrico para a produção de pellets de uso industrial. Com a construção da unidade de fabrico a empresa entra numa área de negócio nova. O que motivou esta aposta?

O core business da Reginacork sempre foi e continuará a ser o granulado de cortiça. No entanto, sentimos a necessidade de encontrar uma fonte de receita paralela, um produto que se assumisse como um negócio complementar, capaz de dar maior sustentabilidade à empresa em momentos de eventuais fragilidades do setor da cortiça. Estudámos e analisámos algumas oportunidades e chegámos à conclusão de que os pellets seriam uma boa aposta. Assim, instalámos uma unidade de produção deste produto, um modelo de negócio diferente, mas com muitas sinergias oriundas do setor corticeiro, nomeadamente, o abastecimento de matéria-prima e a sustentabilidade das florestas. Vale relembrar que os pellets são, basicamente, pequenos aglomerados de madeira de forma cilíndrica produzidos a partir dos subprodutos da indústria de serração, nomeadamente o serrim de pinho e estilha, no caso dos pellets ENplus ou biomassas residuais florestais nos pellets industriais, e constituem um biocombustível sólido de elevada eficiência. As matérias-primas são submetidas a um processo de trituração e secagem seguindo-se a sua prensagem, usando uma matriz cilíndrica, que por um processo de extrusão, permite a produção dos pellets na forma final. A resina natural da madeira é a única responsável pela aglutinação do serrim durante a produção dos pellets, e não são utilizados quaisquer aditivos ao processo de fabrico. Os pellet são biocombustíveis sólidos 100% naturais, renováveis, com impacto neutro nas emissões de CO2 durante a queima, produzidos com as matérias-primas acima referenciadas e com um elevado poder calorífico. Embora tenhamos a certificação ENplus, atualmente, a nossa produção é, maioritariamente, para a indústria e posso afirmar que estamos muito satisfeitos com esta aposta. Ter alguns dos melhores clientes a nível internacional, no setor dos pellets, nomeadamente os países nórdicos, que cumprem religiosamente os seus contratos, deixa-nos otimistas e confiantes.

Os bons resultados alcançados levaram a reforçar ainda mais a produção de pellets com um novo investimento, na ordem dos dois milhões de euros, em 2020. Quais as novidades que o mais recente investimento trouxe para esta área de negócio?

Este mercado tem de ser gerido numa ótica de economia de escala. Se produzirmos pouco, não temos rentabilidade, ou seja, temos de aumentar a produção para a rentabilidade surgir. Foi numa ótica de aumentar a produção e de redução de custos que realizámos este investimento que consistiu na duplicação da capacidade de secagem, de forma a podermos trabalhar com as matérias-primas mais verdes, evitando toda a contaminação natural resultante do manuseamento de materiais secos e no aumento na capacidade de produção tendo, neste momento, capacidade de produção igual ou superior a 45 mil toneladas/ano de pellets. Em paralelo, continuamos com cerca de 7 a 8 mil toneladas nos granulados. Para além disso, automatizámos ainda mais a empresa e estamos, neste momento, a montar painéis fotovoltaicos de forma a reduzir custos energéticos e a criar frotas de autoabastecimento. Esta aposta foi encarada como uma medida de emergência essencial para a sustentabilidade da empresa e tem como principal objetivo compensar as oscilações do setor corticeiro e equilibrar os resultados da empresa a médio/longo prazo.

As dificuldades trazidas pela pandemia aguçaram a criatividade, inovação e capacidade de superação das empresas portuguesas, que fizeram das fraquezas forças e continuaram a triunfar no mundo dos negócios. A Reginacork é hoje um distinto exemplo de resiliência empresarial, tendo continuado a apostar e a investir na sua área de negócio. Podemos afirmar que resiliência, superação e determinação fazem agora ainda mais parte do ADN da empresa?

A Reginacork é fruto de muita dedicação e de muito esforço. É fruto de uma constante readaptação e de muitas inovações, que foram sendo implementadas na empresa, de forma a ser melhor a cada dia. Apostamos numa filosofia de trabalho diferente dos outros e os resultados obtidos, até agora, deixam-nos otimistas perante os grandes desafios que todos estamos a enfrentar. Trabalho, resiliência, determinação, crescimento e melhoria contínua, são os valores basilares da Reginacork que continuarão a fazer parte do nosso ADN no futuro.

Da fórmula do sucesso faz também parte uma equipa de profissionais, indispensável para o êxito do projeto. Considera que, o sólido trabalho e espírito de equipa é a base dos resultados alcançados?

Sem dúvida. Na Reginacork não há um “eu” há um “nós”, que é indispensável para o sucesso do negócio. Sem espírito de equipa, sem interação e sem esforço conjunto seria impossível manter uma empresa como a Reginacork. A equipa de profissionais é um dos nossos pilares. Como em todas as empresas, tem de haver uma liderança, mas também tem que existir uma equipa unida, coesa e que dê o seu melhor com vista a alcançar os resultados pretendidos. É este espírito de equipa que tento preservar e alimentar na Reginacork.

A Reginacork alimenta as suas linhas de produção com matéria-prima que resulta da poda e limpeza e desbaste da floresta destacando-se como uma empresa ambientalmente responsável. Quais as principais medidas adotadas pela empresa com vista à preservação ambiental?

A Reginacork orgulha-se de ser uma empresa amiga do ambiente, adotando importantes medidas com vista à preservação ambiental. Nesse sentido, temos as nossas equipas próprias e as subcontratadas, devidamente certificadas em FSC. São elas que intervêm em todo o processo, sempre sobre a nossa orientação, garantindo que todas as normas de certificação internacional são rigorosamente cumpridas. No setor das madeiras, infelizmente, e na grande maioria das vezes, não há uma preocupação com a sustentabilidade da floresta. A única forma da Reginacork assegurar essa sustentabilidade é realizar todo o processo, que vai desde o contacto com os proprietários da floresta até ao envio dos estilhadores para a transformação das biomassas florestais residuais em pellets. Há um conjunto de regras que têm de ser escrupulosamente respeitadas ao longo de todo o processo e que apenas podemos garantir que são cumpridas se acompanharmos o processo desde início. Para além disso, no setor da cortiça, abastecemo-nos em podas e limpeza dos sobreiros e montados. Vale ainda relembrar que a nossa atividade constitui um grande aliviar da carga térmica nas florestas todos os anos, através do nosso trabalho promovemos a segurança da floresta, diminuindo drasticamente o risco de incêndios e pragas.

Assegurar a satisfação dos clientes, através da produção de um produto de excelente qualidade e do cumprimento dos requisitos do produto e serviço é fundamental para a Reginacork, que é também uma empresa certificada.

GRANULADO DE CORTIÇA

A Reginacork tem implementado os seguintes referenciais normativos:

  • FSC® Chain of Custody Certification, FSC-STD-40-004 Standard (Version 3-0)
  • Requirements for Sourcing FSC® Controlled Wood, FSC-STD-40–005 Standard (Version 3-1)
  • Requirements for use of the FSC® trademarks by Certificate Holders, FSC-STD-50-001 (Version 2-0)
  • NP EN ISO 9001:2015

 PELLETS DE CONSUMO INDUSTRIAL (BIOMASSA FLORESTAL RESIDUAL)

A Reginacork tem implementado os seguintes referenciais normativos:

  • ENplus® de 2015 – Sistema de Certificação de Qualidade para Pellets de Madeira
  • SBP Standard 1 – Feedstock Compliance Standard
  • SBP Standard 2 – Verification of SBP Compliant Feedstock
  • SBP Standard 4 – Chain of Custody
  • SBP Standard 5 – Collection and Communication of Data
  • Instruction Document 2D – SBP Requirements for Group Schemes
  • Instruction Document 2E – SBP Requirements for Risk Based Approach for Biomass Category 2
  • Instruction Document 5E – Collection and Communication of Energy and Carbon Data

Tendo sempre por base a inovação, excelência, determinação e profissionalismo, o que podemos esperar da Reginacork para o futuro?

Com contratos até, pelo menos, 2026 nos dois setores as perspetivas de futuro da Reginacork são bastante animadoras, no entanto, não nos podemos esquecer que é necessário continuar a apostar na inovação e na sustentabilidade. Após termos atingido a capacidade de produção mínima de 45 mil toneladas/ano de pellets e manter as cerca de sete toneladas/ano de granulados, não está nos nossos planos aumentar ainda mais esta capacidade, a fim de não pressionar a floresta no nosso raio de ação e intervenção. Diria que, pretendemos, na próxima meia década, criar sustentabilidade na empresa, otimizando produções e reduzindo custos. Queremos tornar a Reginacork uma empresa 100% verde.